domingo, 29 de novembro de 2009

FRAGILIDADES



















Como são frágeis as construções humanas!

A fragilidade das máscaras, das acções, das relações

Como são frágeis as promessas humanas

Os compromissos firmados

A saúde, sucesso, fama e posição social.

Como são frágeis as noções de futuro

As sensações, emoções e conclusões.

Como são frágeis os sentidos criados

Pra nossa crise de desamparo

Diplomas, carreiras, masculinidades e feminismos

Adquiridos estes últimos em bancas de jornal

Pra nos desviar do foco, do desejo real.

Como é frágil e débil a fé em Deus

Como os demais castelos de areia criados.

Como é frágil o saber humano

A prepotência da aparência

Que vence a inteligência

Mas sucumbe ante a morte

Ante o envelhecer que tarda, mas não falha.

Como é frágil a existência humana com suas contradições

Garantias, certezas, vícios, controle, apego as paixões.

Filhos da onipotência humana

Não existem garantias, nem certezas.

Somente ilusões, crenças, fé... Desejo!

O que nos resta é escolher

Dentro de limitadas opções.

Tudo perece ante o imprevisto

O imprevisto disseca a nossa realidade

E nos mostra a fragilidade da felicidade, da conduta,

Da virtude, da moral, dos costumes.

Tudo sucumbe ante a necessidade:

Ideais, certezas, crenças, promessas, fé.

Tudo está à venda, tudo é negociável

Não só o corpo, mas a alma também.

Se tudo tem um preço, todo homem também.

Tudo arrefece ante a dor

Tudo o que foi dito e promessas de amor.

Na dor toda carne se afirma carne

Na tortura toda carne se trai

Na provação a verdade aflora

No sofrimento toda alma se entrega

Na pressão toda alma se retrata.

No deserto gelado da alma

Que cala ante o desejo

Que derrete o verniz que a oprime

E que se submete ao seu jugo

E ainda assim, diante das evidências nega

E pela negação, afirma o que é ser humano.

O olhar trai as palavras e o que elas dizem

O sentimento sem consentimento

Tenta alterar o teor das sensações

O substrato instintivo da mente

Vigora vida afora.

Nada está tão a mostra

Mesmo quando se mostra

Mas tudo está visível

Mesmo que aparentemente invisível.




TIAGO TAMBURU BRESSAN


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SOBREVIVENDO NO CORPO

























A escola não me ensinou nada do que eu quisesse aprender

O mundo não corresponde aos meus anseios

As mulheres frustram minhas expectativas de amor

A família deforma os ideais nobres pelos de consumo

A religião valoriza a competição e a produção

Os intelectuais não compreendem o valor da compreensão

Estou perdido, estou vazio

Na mais completa solidão.

Os vínculos são de negócios

As relações são de ordem comercial

O que me salva das tragédias anunciadas

São minhas construções internas

Vou sobrevivendo no corpo

Por pouco, aos poucos, ainda acordado.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ORAÇÃO DOS AMANTES





















Inimigo meu que estais no inferno

Lembrado eternamente por minha espada

Seja o vosso nome

Venha a mim a tua derrota

E seja feita a minha vontade

Aqui na terra quanto aí no inferno

O instinto e insultos nossos de cada dia

Fomentemos hoje

Perdoa o mal que não lhe fiz

Da mesma forma com que não perdoo

O mal que não me fizeste

E que não nos deixemos sentir a gratidão

E livremo-nos de toda a culpa

Em nome da guerra que nos une

Abençoados sejam os afectos sentidos

Pelo romance entre os inimigos.


Que assim seja!



Tiago Tamburu Bressan