quinta-feira, 24 de setembro de 2009

REBENTO REBELDE *


















Quando eu nasci

Aprendi a ser o que eu não sou

Fui o barro disforme

Nas mãos de ferro

De um ditador

General de cinco estrelas

Manipulador moral

Cruel e sagaz

Sádico e pedófilo

Corrupto e oportunista

Fui sua cobaia

Uma de suas experiências

Ele me ensinou a reprimir

Sentimentos e lágrimas

E a expurgar o ódio

Todo tipo de violência e insanidade

Exceto contra ele

Contra suas idéias

Pois quando isso eu tentei

Tão logo me ensinou a sentir culpa

Usando a família de escudo

Pra que eu não o pudesse superá-lo

Castrador de lágrimas, de afetos

De sentimentos

Dizia que homem não chora

Mas eu tinha lágrimas

Como era triste e doloroso

Tentar fingir que o amava

Ter que fingir que dormia quando ele chegava

Mudar de canal quando o ouvia se aproximar

Eu tinha vergonha que ele criticasse meus programas

Os meus pequenos prazeres juvenis

E ele sempre o fazia com excesso de desprezo

Já pensei em matá-lo enquanto dormia

Mas se fosse matá-lo

Queria ele acordado

Pra que sentisse a dor que senti

Calar-me era sua meta

Rebaixar-me o seu prazer

Hoje ele se encontra em uma cadeira de rodas

Preso em seu próprio corpo

Eu sou acusado de violência contra idosos

Tentando me fazer homem

Papai é idoso aos olhos alheios

Mas não sob os meus

Eu me odeio por detestar papai

E ter tanto dele em meu interior

Essa revolta, essa dor

Ou eu reprimia ou extravasava

No passado eu reprimia

Hoje eu extravaso

Tirei os movimentos de papai

Pois papai não me deixou crescer

Tentando me fazer crescer do seu jeito

No seu tempo, à sua maneira

Ele me encolheu

Papai me batia fardado

Hoje eu visto a farda dele e o espanco

Urino nele

Dou–lhe choques

Não lhe deixo dormir

Ponho auto falantes em alto volume em seu ouvido

Taco-lhe sal nos olhos

Eu não quero que papai morra

Pois hoje estou aprendendo sobre meus sentimentos

Hoje eu bato quando ele chora

Não respeito suas dores

Como ele não respeitou as minhas

Abafe-as, sublime-as como ele me dizia

Hoje sou eu que as reproduzo

Seja homem papai

Homem não chora

Hoje sou eu quem lhe digo

Ele sabia do meu amor por mamãe

E dizia que ela era uma puta

Aquilo me doía tanto

Hoje eu falo o que ele nunca soube

O que nunca soube sobre mamãe

Hoje promovo orgias diante do monstro

Com todas as aberrações possíveis

Até fluidos orgânicos da anatomia masculina papai provou

Fluidos de negros e gays

Que ele sempre detestou

Hoje eu visto papai de rosa e pinto-lhe a face com as maquiagens de mamãe

E o deixo horas diante do espelho

Já que me levava em puteiros

Obrigando-me a deitar-me com mulheres que eu não desejava

O monstro criou herdeiros

A criatura voltou-se contra o criador

Causa e efeito

Ação e reação

Obsessor encarnado

Ele foi o meu um dia

Hoje eu sou o seu

Não quero que papai morra

Vou cuidar bem dele

Quero papai bem vivo

E sou eu quem decido

Eu quero por um longo tempo

Brincar de ser papai de meu papai

Eu venho aos poucos mutilando papai pacientemente

Mutilações não físicas

Assim como foram suas mutilações para comigo.



TIAGO TAMBURU BRESSAN


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O NOVO ÉDIPO *




















Não quero te-la

Temo deseja-la

Como um quadro

Que de duas formas pode ser visto

Assim pode ser ela

Assim ela pode ser vista

Em meus medos assim ela já é

Não, eu temo não resistir

Ao poder da libido

Ao desejo inconfessável

Ao ciúme indefinível

Ao sentimento indecifrável

Esse sentimento possessivo é doentio

E até mesmo viril

Em relação a ela tudo é dual:

Desejo e ternura

Felicidade e amargura

Ela parece carregar consigo

A vida e a morte

E ela ainda nem existe

A não ser em meus dois desejos

Desejo e medo

Mulher e criança

Sanidade e loucura

Pensar nela me tortura

Desgraça ou salvação

Busco minha intuição

Meu sexto sentido

Pra definir o que sinto

Penso em me cegar

Como Édipo se fez

Mas não em relação à própria mãe

Mas sim em relação à própria filha.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A GRANDE TEIA DO CAOS HUMANO



















O ego transgride a ética

O medo permeia as relações

O desejo subjuga a razão

A posse substitui os ideais nobres

Produtos substituem afeto

O dinheiro mascara a dor

O lucro define os porquês

O questionamento é mero coadjuvante

Nessa indústria de certezas descartáveis

O mercado é juiz corrompedor da espontaneidade

O consumo, o mais novo líder espiritual da insanidade humana

Os produtos são nossos Deuses

Deus sempre foi um produto dos homens

Os homens são produtos de Deus?

Nessa fábrica de ilusões

Nesse domínio de incertezas

Nosso corpo é referêncial de prazer

É resposta ao suicídio dormente

Da alma combalida e perturbada

Pela ausência de respostas concretas

Na fartura de conceitos insólitos

Profundo nas palavras, superficial no conteúdo.

Altos ideais, baixa moralidade.

Promiscuidade familiar, religiosa, política e científica.

Os bordéis sempre foram perseguidos, mas sempre freqüentados.

Discriminados injustamente por aqueles que são os mais bem tratados

Rotulados de profano por aqueles que o freqüentam

Por aqueles que no íntimo o julgam sagrados

Somos almas cadavéricas em corpos torneados

Buscando as chaves de portas que tememos abrir

Vivendo de preconceitos que queremos abolir

A existência foi reduzida a gozo excessivo e diversão

Onde estão os soldados feridos não prostituídos?

Os resistentes a não conformação?

Os grandes revolucionários são abortados na grande teia

Induzidos por ela a se embriagarem no vinho

Acreditando serem livres nos excessos

Na limitada existência dos sentidos físicos

Você talvez não saiba que está em uma grande teia

E que a grande aranha te vampiriza

Exorciza na fonte os teus desejos de libertação

E te faz acreditar viver na realidade

Quando na realidade se vive a ilusão

Saia deste aquário e busque o mar.

Saia desta caverna e sinta o ar.



Tiago Tamburu Bressan