sábado, 29 de agosto de 2009

EXCLUSÃO PRÉ PARTO


















Algumas pessoas que prestam

Dizem que com as quais converso não prestam

Mas quem não presta me estendeu as mãos

Olhou-me nos olhos

Sorriu e me apertou a mão

Ofereceu seu ombro

Compartilhou seus medos

Lançou suas dúvidas

E me abriu seu coração

Mas quem presta

Não me olhou nos olhos

Virou-me a face

Negou intimidade

Fez-se celebridade

Posou de autoridade

Num mundo de corrupção

Talvez por isso prestem

Por nunca se prestarem a nada

Talvez por isso que os outros não prestem

Por se prestarem, por exporem sua humanidade

Que é a nossa humanidade

Os cultos a chamam de ridícula

Trocam o termo temeridade

Por austeridade

Poesia vitoriana

É fácil falar de coisas

Que nunca viram

Que nunca viveram

Que nunca ousaram sentir

Coisas que sempre viraram as costas

Pra se omitir

É muito fácil ter virtude na fartura

Fama nas costas alheias

Ser santo em um meio suntuoso

Mas pra quem não tem as senhas

Que permitem os acessos

Acessos que são bloqueados

Pelos meios e genes herdados

Sadicamente, dizem eles

Que tudo é possível

Que quando a gente quer

A gente consegue

Que querer é poder!

Como conseguir

Se o que nos motiva a querer me foi tirado?

Sou filho do Pai

Do pai que estuprou a puta que me pariu

Cresci num meio que me reduziu

Fui criado pelo acaso, pelo descaso

Nutrido pelo vazio

Gerado na dor

Excluído do útero por drogas que não me mataram

Jogado no lixo

Achado no esgoto

Sinto-me não como se fosse sido gerado

Mas defecado, vomitado

Descartado como algo já usado, sem valor

Hoje a indiferença já não faz mais diferença

Não vejo horizontes

Fazer planos me causam medo

Temo o fracasso

Prefiro não sentir de novo

O que sinto agora

Sinto dor, sinto o odor da derrota

Feito encosto em minha alma

Sinto a crueldade das pessoas em me expor

Com seus espelhos nunca voltados para si

Eu gosto de gente que nem eu

Os excluídos, os fracassados, os dementes, os sem dentes

Solitários, desesperados, dependentes

Gente que não pode almejar nada além do prazer

Instantâneo, imediato, entorpecedor, curador, destrutivo

Busco tudo com o que me identifico

Eu vim, eu vivo no lixo

Na miséria moral

Sou um leproso contemporâneo

Um suicida social

Se não podes me estender a mão

Por favor, não me critique, não me acuse

O teu silêncio esconderá tua hipocrisia

E eu não me sentirei culpado

Em minha agonia

Se me negam o básico que não tenho

Permitam-me o mínimo que tento encontrar

Se me negam o mínimo que lhes sobram

Permitam-me dissecar meus cadáveres

Revirar meu lixo

Saborear minhas fezes

E vomita-la depois

Permitam-me senhoras e senhores

Rir da minha própria desgraça

Aceitar o bizarro da existência

Num tom de inocência com ar juvenil

Deixem-me viver em paz

Com a paz que posso sonhar

Paz... mesmo sem pão

Pão da carne, pão da alma

Carne e alma

Que agora se despede

Pra comer do lixo

Que vocês admiram

Enquanto teóricos

Lixo que lhes deram notoriedade

Que os transformaram em celebridade

Lixo sobre os quais vocês discorrem muito bem

Lixo que não sai da boca de vocês

A minha miséria os enriqueceu

Graças a ela na TV vocês aparecem

Lixo que no livro vocês leram

Mas que na vida real quem come sou eu

Pobre gosta é de luxo

Mas vive no lixo

Quem gosta de miséria é intelectual

Mas gostam porque lhes trazem o luxo

Vivem à custa do meu lixo

Sou o santo a ser venerado

A imagem a ser idolatrada

Sou o discurso das elites

O herói dos intelectuais!


Tiago Tamburu Bressan

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

DEFINIÇÕES

























MORTE: Extensão da vida.

VIDA: Preparação para a morte.

DEUS DA IGREJA: Um dogma, um conceito pop para um público infantil.

O homem criou Deus a sua imagem e semelhança, e não o contrário.

DEUS DO COSMOS: O poder pelo auto-conhecimento.

RELIGIÃO DA IGREJA: Política, poder, influência social e controlador razoavelmente bom da agressividade humana contra si mesmo o outro e a sociedade.

RELIGIÃO DO CRISTO: O compromisso com a verdade, eu com o próximo.

POVO: Nada muito diferente dos políticos, é só uma questão de oportunidades.

AMOR: A descoberta mais antiga que a humanidade ainda não encontrou.

CERTO: O desenvolver da sabedoria.

ERRADO: A preservação da ignorância.

MENTIRA: A crença de que só se ama uma vez.

PODER: O poder de não deseja-lo, a consciência de não te-lo.

VIRTUDE: Aquilo que não parece virtude.

GLÓRIA: A saúde física, mental e emocional.

FAMA: Um vento que destrói árvores, e que a todo momento muda de direção.

DINHEIRO: Útil e necessário enquanto papel, útil enquanto necessário.

POBREZA: A futilidade, o ressentimento e o preconceito.

FAMÍLIA: Algo muito além de quem julga entende-la e muito acima de quem busca

defende-la.

CONSUMO: Podemos consumir desde que ele não nos consuma.

CONFORTO: Saudável desde que não vicie.

CIÚME: Podemos possui-lo, desde que ele não nos possua.

Seu lugar é abaixo do cérebro e não no lugar do cérebro.

DESEJO: Benéfico desde que não nos corrompa e que não fira o direito do outro.

VELHICE: Experiência não é sinônimo de sabedoria, sabedoria é oque se faz com a experiência.

MULHER: Um ser humano.

MACHO: Importantíssimo para vida, mas apenas para a vida animal.

CORAGEM: É assumir pra si mesmo os próprios temores, é não mentir para si, pois mentir pra si é a pior das mentiras.

HOMEM: Só se é com sensibilidade.

HOMOSSEXUAL: Assim como nós, mais um ser humano que sente e sofre.

SEXO: Sexo, e nem sempre prazer!

ROMÂNCE: Parceria, projeto, compromisso, identificação e afinidade.

SEXO COM ROMANCE: Além dos limites do corpo.

DIVÓRCIO: Lei humana que separa legalmente perante a carne o que já se encontrava separado no espírito e no coração.

VIOLÊNCIA: Só sob controle.

PRAZER: Só é possível pela via do equilíbrio.

CRISTO: A integração com um outro nível de consciência.

META DE VIDA DO HOMEM: O domínio de si mesmo pela verdade.

DOMÍNIO DE SI MESMO: Privilégio de poucos, e trabalho para a vida toda.




Tiago Tamburú Bressan



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A FORÇA

























A força do mestre é o discernimento

Do sábio o dom de prever

Do inteligente a estratégia

Do iniciante a humildade

Do professor o conhecimento

Do santo a renúncia

Da igreja a manutenção da culpa

Do homem comum a mulher

Do homem vulgar a vagina

Do homem sensível o amor

Do sensitivo a intuição

Do louco a realidade

Do lúcido a visão

Do profeta o além

Do egoísta a própria aparência

Do que se auto conhece, si mesmo

Do fraco o outro

Do inseguro a posse

Do fracassado a ambição material

Do carente o aplauso

Do orador a retórica

Do palhaço o público

Do actor o desconhecimento de si

Do poeta o romantismo

Do bêbado a pinga

Do cão os dentes

Do gato as unhas

Do pássaro as asas

Da pena a leveza

Do homem grande os músculos

Do grande homem a inteligência

Do chefe o cargo

Do incompetente a autoridade

Do líder os seguidores

Do político as promessas

Do rico o luxo

Do pobre a crença

Do sofredor a esperança

Do inquieto a busca

Do justo o desapego

Do bebê a inocência

Da criança a sinceridade

Da mulher também a maternidade

Do pacífico a flexibilidade

Do virtuoso a gratidão

Do verdadeiro revolucionário o bom senso

Do verdadeiro rebelde uma verdadeira causa

Do bruto o corpo

Do refinado a alma

A força do fútil é a vestimenta

Do pensador a introspecção

Do fraco a violência

Do forte o conhecimento da própria fraqueza

Do resistente é a convicção

Do homem prático o raciocínio lógico

Do teórico o discurso

Do vencedor a dedicação

Do metafísico o inconformismo

Do filósofo o questionamento

Do sonhador a abstracção

Do playboy o dinheiro do pai

Do preguiçoso a herança

Do corajoso seu auto-conhecimento

Do medroso valente a precipitação

A força do patrão está também nos funcionários

E a força dos funcionários vem do patrão.

A força de Napoleão estava em seu exército

E a força de seu exército estava em Napoleão.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

sábado, 8 de agosto de 2009

A FILOSOFIA DO FORTE




















É nobre morrer pelo outro

Porém medíocre deixar de viver para si.

Devemos conviver com o outro, e não ser o outro.

Podemos nos dedicar ao outro

Mas não vivermos em função do outro.

É importante nos entregarmos ao outro

Sem jamais perder o contato conosco mesmo.

É engrandecedor viver com o outro, mas nunca pelo outro.

É útil entregar-se à relação, e não perder-se nela.

Renunciar pode ser útil, mas anular-se será sempre danoso.

Amar será sempre útil

Mas sofrer por amor nunca será amor, portanto, inútil.

O outro não é nossa vida, nossa força

Nosso brinquedo e nem nossa meta.

O outro não deve ser o nosso ideal de vida

Ele deve ser ele mesmo, o outro.

Devemos aprender a compartilhar,

Desenvolver projetos, idéias e ideais com o outro.

O outro não é nossa garantia

Nunca foi e nunca será

Pois o outro não tem a obrigação de nos garantir

Ou de tornar estável

A nossa própria instabilidade emocional.

A função do outro em nossa vida é a de somar

Acrescentar com o que já existia em nós

Antes da sua chegada.

O problema é que poucos têm o mínimo

Que os garanta em seu próprio interior.

Como já disse, a função do outro é somar

E se o outro nada nos acrescentar,

Muito menos deve subtrair.

Nós não somos o outro e o outro não é nós,

Nós fazemos parte um do outro.

Nós somos nós e outro é o outro.

Nós devemos fazer parte da vida do outro

E outro parte de nós.

Eu preciso do outro, mas não devo depender do outro.

Minha meta sou eu, mas meu projeto somos nós.



Tiago Tamburu Bressan

sábado, 1 de agosto de 2009

OS DOIS VIAJANTES




















No mundo há dois tipos de viajantes:

Um é o vulgar e o outro o diferenciado.

O vulgar empreende viagens externas

Enquanto o diferenciado viagens internas.

Viagens externas objetivam o esquecimento dos problemas

Enquanto viagens internas objetivam a solução dos mesmos.

Uma serve pra distrair e a outra para instruir.

Uma exige empolgação e a outra força de vontade.

O tributo de uma é o dinheiro e da outra o comprometimento.

Uma necessita de distração para ser proveitosa, enquanto a outra, concentração.

Uma promove uma falsa sensação de discernimento, esclarecimento e alegria.

A outra uma falsa sensação de tristeza.

Uma é para alguns momentos da vida e a outra pra vida toda.

Uma é superficial e a outra profunda.

Uma traz bajuladores e a outra críticos.

Com uma você seduz pessoas.

Com a outra dificilmente você as conquista.

Ás armas companheiro!

Escolheu seu lado?

Decidiu sua postura?

Eu optei a de não ser impostor!

E você?



Tiago Tamburu Bressan