terça-feira, 6 de outubro de 2009

A DESCOBERTA DA ZONA ERÓGENA *

























Certo dia
Bom ânimo me tomava
Sensibilidade à flor da pele
Conduzia-me as aspirações
Transbordava em minha alma
O desejo por contato
A ânsia por encontros fraternos
Ver e ser visto
A necessidade do toque era imperativa
Tocar coisas vivas e pulsantes
Coisas que sangrem e tenham calor
Coisas que sintam dor
Era a necessidade de viver e tocar
Coisas vivas que vão morrer
Mas o desprezo e a crueldade deles para comigo
Pegaram-me sobre maneira
Estilhaços de frieza e desdém
Feriram-me a alma
Sozinho então saio às ruas
Eis que encontro alguém bela
Anatômicamente idêntica
Morfologicamente diferente de mim
Algo conhecido aos meus olhos
Mas até então desconhecido,
Negado ou temido pelo coração
Talvez reprimido
E porque não recalcado
Pelas leis morais da razão
Dessa pseudo sociedade em construção.
Sabia eu
Que aos meus anseios responderia
Era alguém que assim como eu
Encontrava-se ao influxo da bebida
E sob seu açodar
Afrouxaram-se minhas armaduras morais
Meus escudos psíquicos
Socialmente construídos, reproduzidos e interpretados
E a desejar estava aquilo que sempre neguei
Aquilo que durante toda a minha vida critiquei,
Persegui, combati, fugi ou zombei
Toquei enfim algo que sangrava!
Quando toquei o que naquela noite buscava
Mas que daquela forma sempre negava
Da minha alma jorraram o sangue dos meus preconceitos
Jorraram muito mais do que sangue
Jorrou tudo aquilo
Que num outro corpo fecundaria
E nova vida geraria
E que morte súbita na minha mente me trouxe
Mas também vida junto dela
Senti-me morto no que me senti vivo
Senti-me vivo no que me senti morto
Morto pelo pecado cometido
Mas aliviado por ter gozado
Gozado pelo pecado praticado
Senti-me livre por ter transgredido
Não estava eu habituado
Com aquilo que lhe era habitual
Fui tocado
Como nenhuma mulher
Antes havia ousado
Fui doutrinado
Como nenhuma mulher antes havia tentado.
Renasci pros meus demónios
Pros antigos instintos
Pra novos afetos.
Crenças particulares
Princípios ostentados
Inconscientemente pela vaidade intelectual
E por manobras defensivas
Foram massacrados violentamente
Pela força dos desejos
Pela dor da solidão
Pelas fomes e apetites
Que transcendem
As necessidades fisiológicas
São fomes psicológicas que somatizam
Que definham a mente
E quase sempre criam desvios
Que satisfeitos são nas perversões.
A descoberta da zona erógena
Afetou minha identidade
Espelhos se quebram todos os dias
Mas não precisei queimar ou rasgar
Muito menos abolir meus papéis sociais
Minha couraça muscular está mais leve
Porém mais inimigos angariei
Hoje tenho dupla nacionalidade
Passaporte pro fogo do inferno
Ou quem sabe pra além da eternidade
Troquei o estoicismo pelo hedonismo
A perfeição pela plenitude
A monotonia do mundo dos mortos
Pelos riscos dos mundo dos vivos
Vivam os vivos e suas descobertas
Eu renasci e ressuscitei
Casei e me divorciei
Nas peripécias da vida adulta
A zona erógena eu encontrei.



Tiago Tamburu Bressan

5 comentários:

  1. O nome do texto tbm pode ser, A descoberta das Zonas erógenas, afinal, do couro cabeludo, até os dedos dos pés... tantas descobertas, misturadas com prazeres escondidos, envergonhados, rotulados,desprezados, discriminados...tudo aquilo que busco, em um corpo que mal conheço.

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  2. Todas as partes do nosso corpo quando desejadas são estimuladas, portanto podem responder mesmo sem o toque, apenas com a intenção do outro.
    Mas é obvio que o desfecho com o toque sacramenta esse jogo de erotização.
    É que no caso do texto houve apenas uma única zona erógena mesmo.

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  3. Me senti mergulhada no poema, vivendo cada palavra viva e morrendo a cada frustração do mundo real a qual pertenço. A fantasia está presente, mas a realidade se mostra cada vez mais fortalecida, colocando-me amarras e, talvez por isso esse texto tenha me tocado tanto. Queria compartilhar com o autor a volúpia do sagrado-profano q jorra em cada zona erógena não revelada, não sentida, sempre arrastada pelos desejos intensos, mas cerceada pela moral q se impõe no real, impedindo q autor e leitor transgridam o virtual para atualizar seus corpos. Não nego, o pulso ainda pulsa... Bj.

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  4. Um pouco de freio é bom pro próprio prazer, pois o prazer pra ser bom não pode ser satisfeito de uma única vez, deve ser sentido aos poucos pra só depois atingir um ápice de loucura.
    Não culpe a moral, a função dela é justamente apimentar o desejo.
    É pra isso que ela existe.
    Se tudo fosse liberado não haveria o prazer de transgredir, pois gozamos muitas vezes não é pelo sexo em sí, mas pelo ato da transgressão. A repressão é o estimulante do desejo.
    Goze, mas com moderação...pra continuar gozando até que a morte os separe...separe vc do prazer.

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  5. eis aqui a confirmação de todas as minhas palavras ja ditas e repetidas tantas vezes a você...procura na falsa aparencia a evocação daquilo que na realidade não suporta e no fundo aquilo que se esconde atrás da aparencia visualmente correta é o que na verdade anseia....

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