
No silêncio da noite escura
A solidão me tortura
Suscitando em minha alma apegada aos devaneios
A tão sonhada cura.
Mas quero representar a mulher moderna independente
Emancipada apenas economicamente
No mundo externo da esfera social.
Reprimida alma encarnada
Na mais densa e insana lama obscura
Assim sou eu em minhas fantasias eróticas
Fascinada pela subserviência aos generais
Aos agressores nocturnos
Que ostento em pensamentos, nas noites frias.
Na solidão das noites frias
Minha alma em chama clama por pecado.
Os porões do inferno foram abertos
Quando neguei meus desejos
Quando em vão tentei sublimar meus instintos
Quando paguei caro e comprei pronto o mito da maternidade
Que na realidade não se aplica a toda mulher
E compensar com objectos inanimados meus desejos carnais.
Desde então não tenho paz!
Almas da minha alma são um tanto sagaz
Em mostrar minhas mentiras
As minhas falsas construções
E corromper meus nobres ideais.
Ideais do ego consciente
Da bem comportada mulher decente.
Sou uma crente, mulher carente
Mulher que teme
Mulher que mente.
Que mente descaradamente
Perante um espelho
Que sempre se quebra
Ao contemplar uma imagem desgastada
Corroída pela acção do tempo.
Tempo que não tenho pra me permitir sentir
Tempos que há tempos se foram
E que não voltam mais.
O mundo das ideias vem tomando forma
No mundo das formas.
Os conteúdos reprimidos vêm tomando conta.
A dama da noite que me habita clama por liberdade e devassidão
E eu não estou dando conta
De acorrentar minha obsessão.
A repressão é o estimulante do desejo!
Neste momento real
De nada me servem os livros
Ou a literatura ostentada sagradamente durante anos.
Nem a bíblia sagrada parece mais me enganar.
Nada aplaca a fúria da libido com seu fluxo contínuo
Seja banho frio, chicotinho ou espinheiro santo.
Eu me toco e gozo
Na solidão que me caratecteriza.
Eu choro, respiro profundamente
E volto pras minhas mentiras mundanas
Mentiras mundanas da mulher contemporânea.
Aliviada do stress do desconforto das águas represadas
Volto a ser mãe, avó, matrona.
No mundo das aparências
Novamente encarno as resistências
De advogada, oradora, terapeuta
Professora e educadora
Voltando a ser de novo o que todos esperam de mim.
Auto-prazer é uma mentira
O amor talvez não exista
Talvez uma invenção dos poetas
Pra levar donzelas pra cama.
O sexo por prazer também me sacia a alma
Embora eu negue.
Sou um fantasma que vaga em dois planos
Tentando encontrar o que talvez não exista
Em nenhum dos dois.
E enquanto eu não encontro
Enquanto eu não desisto
Eu também não existo.
Enquanto não me emancipo
Preciso de membros pra me elevar a estima
Membros pra me fazer dormir
Membros pra me ressuscitar.
Nesse momento o fel é mel
A dor é prazer
A força é carícia
Em meus ouvidos palavrões se tornam poesias
O profano me é sagrado.
Distorção afectiva?
Na profundidade do meu ser
Anseio por ser a Anfitriã de corpos
Que no mundo das formas nunca existiu.
Mas é ela quem vos fala agora
Desse imenso oceano represado
Que embora desprezado
Sempre existiu... Sempre sentiu!
Nesse momento o verbo se faz carne
A mulher vitoriana se torna libertária
Os aspectos étnicos, sociais e económicos com seus preconceitos
Deixam de existir.
Nesse momento eu não tenho preferências
Eu aceito quem me quer
Eu sou de quem me deseja
Eu desejo quem me possuir.
E com muita resistência
Eu aceito que talvez eu ame
Seja homem ou mulher
O ser que me faça existir!
TIAGO TAMBURU BRESSAN

