sábado, 24 de outubro de 2009

ANFITRIÃ DE CORPOS *

























No silêncio da noite escura
A solidão me tortura
Suscitando em minha alma apegada aos devaneios
A tão sonhada cura.
Mas quero representar a mulher moderna independente
Emancipada apenas economicamente
No mundo externo da esfera social.
Reprimida alma encarnada
Na mais densa e insana lama obscura
Assim sou eu em minhas fantasias eróticas
Fascinada pela subserviência aos generais
Aos agressores nocturnos
Que ostento em pensamentos, nas noites frias.
Na solidão das noites frias
Minha alma em chama clama por pecado.
Os porões do inferno foram abertos
Quando neguei meus desejos
Quando em vão tentei sublimar meus instintos
Quando paguei caro e comprei pronto o mito da maternidade
Que na realidade não se aplica a toda mulher
E compensar com objectos inanimados meus desejos carnais.
Desde então não tenho paz!
Almas da minha alma são um tanto sagaz
Em mostrar minhas mentiras
As minhas falsas construções
E corromper meus nobres ideais.
Ideais do ego consciente
Da bem comportada mulher decente.
Sou uma crente, mulher carente
Mulher que teme
Mulher que mente.
Que mente descaradamente
Perante um espelho
Que sempre se quebra
Ao contemplar uma imagem desgastada
Corroída pela acção do tempo.
Tempo que não tenho pra me permitir sentir
Tempos que há tempos se foram
E que não voltam mais.
O mundo das ideias vem tomando forma
No mundo das formas.
Os conteúdos reprimidos vêm tomando conta.
A dama da noite que me habita clama por liberdade e devassidão
E eu não estou dando conta
De acorrentar minha obsessão.
A repressão é o estimulante do desejo!
Neste momento real
De nada me servem os livros
Ou a literatura ostentada sagradamente durante anos.
Nem a bíblia sagrada parece mais me enganar.
Nada aplaca a fúria da libido com seu fluxo contínuo
Seja banho frio, chicotinho ou espinheiro santo.
Eu me toco e gozo
Na solidão que me caratecteriza.
Eu choro, respiro profundamente
E volto pras minhas mentiras mundanas
Mentiras mundanas da mulher contemporânea.
Aliviada do stress do desconforto das águas represadas
Volto a ser mãe, avó, matrona.
No mundo das aparências
Novamente encarno as resistências
De advogada, oradora, terapeuta
Professora e educadora
Voltando a ser de novo o que todos esperam de mim.
Auto-prazer é uma mentira
O amor talvez não exista
Talvez uma invenção dos poetas
Pra levar donzelas pra cama.
O sexo por prazer também me sacia a alma
Embora eu negue.
Sou um fantasma que vaga em dois planos
Tentando encontrar o que talvez não exista
Em nenhum dos dois.
E enquanto eu não encontro
Enquanto eu não desisto
Eu também não existo.
Enquanto não me emancipo
Preciso de membros pra me elevar a estima
Membros pra me fazer dormir
Membros pra me ressuscitar.
Nesse momento o fel é mel
A dor é prazer
A força é carícia
Em meus ouvidos palavrões se tornam poesias
O profano me é sagrado.
Distorção afectiva?
Na profundidade do meu ser
Anseio por ser a Anfitriã de corpos
Que no mundo das formas nunca existiu.
Mas é ela quem vos fala agora
Desse imenso oceano represado
Que embora desprezado
Sempre existiu... Sempre sentiu!
Nesse momento o verbo se faz carne
A mulher vitoriana se torna libertária
Os aspectos étnicos, sociais e económicos com seus preconceitos
Deixam de existir.
Nesse momento eu não tenho preferências
Eu aceito quem me quer
Eu sou de quem me deseja
Eu desejo quem me possuir.
E com muita resistência
Eu aceito que talvez eu ame
Seja homem ou mulher
O ser que me faça existir!


TIAGO TAMBURU BRESSAN

sábado, 17 de outubro de 2009

O CORPO DO FILHO *




















Nem sempre concordamos conosco
Embora mintamos a nós mesmos
E aos outros sobre isto.
Assim sendo
Porque iríamos concordar com os outros?
Os outros são partes de nós
E muitas vezes
Partes de nós que não queremos aceitar
Ser, ver, muito menos entender
Justamente por temer.
Por isso quero uma vela!
Pois esta noite eu vou ao meu enterro
Velar o que se apartou de mim
Vão prestar culto ao que em vida
Sempre cultuaram em mim
Mas não o que eu cultuei.
Nesta noite será visto
Apenas aquilo que sempre quiseram ver.
Continuarei vivo pra mim
Parecendo morto pra eles
Enquanto era vivo na carne
Parecia eu morto para eles
Agora que morre a carne
Estou vivo pra eles
Vivo entre eles.
Enxuguem suas lágrimas
Apaguem suas velas
Pai, mãe, suas lágrimas estão afogando-me
Suas velas estão me queimando
Pai e mãe, em súplica lhes peço
Se acalmem, não se culpem
Não sejam egoístas
Não lamentem minha ausência física
Se amem para aprenderem a me amar
Se perdoem para conseguirem me perdoar
Deêm-nos uma chance
Fiquem em paz
Pra me deixarem em paz
Cresçam e aceitem a realidade
Do acontecimento mais natural da vida:
A MORTE!
Porque tanto desespero
Se sempre soubemos disso?
Quanto despreparo em vida
Perdidos em gozos, conforto
E bens materiais
Riquezas que duram um dia
Perante a eternidade.
Meus filhos, que estão meus pais
Não se afoguem em poças d´agua
Não chorem
Vivam e reflitam.
Não chorem, nem se lastimem
Prossigam!
Pois a vida não acabou para nós
Pois ela, a vida...Continua
Continua pra nós, além de nós
Continua velada ou nua
Pro mundo... E além do mundo.


Tiago Tamburu Bressan

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A DESCOBERTA DA ZONA ERÓGENA *

























Certo dia
Bom ânimo me tomava
Sensibilidade à flor da pele
Conduzia-me as aspirações
Transbordava em minha alma
O desejo por contato
A ânsia por encontros fraternos
Ver e ser visto
A necessidade do toque era imperativa
Tocar coisas vivas e pulsantes
Coisas que sangrem e tenham calor
Coisas que sintam dor
Era a necessidade de viver e tocar
Coisas vivas que vão morrer
Mas o desprezo e a crueldade deles para comigo
Pegaram-me sobre maneira
Estilhaços de frieza e desdém
Feriram-me a alma
Sozinho então saio às ruas
Eis que encontro alguém bela
Anatômicamente idêntica
Morfologicamente diferente de mim
Algo conhecido aos meus olhos
Mas até então desconhecido,
Negado ou temido pelo coração
Talvez reprimido
E porque não recalcado
Pelas leis morais da razão
Dessa pseudo sociedade em construção.
Sabia eu
Que aos meus anseios responderia
Era alguém que assim como eu
Encontrava-se ao influxo da bebida
E sob seu açodar
Afrouxaram-se minhas armaduras morais
Meus escudos psíquicos
Socialmente construídos, reproduzidos e interpretados
E a desejar estava aquilo que sempre neguei
Aquilo que durante toda a minha vida critiquei,
Persegui, combati, fugi ou zombei
Toquei enfim algo que sangrava!
Quando toquei o que naquela noite buscava
Mas que daquela forma sempre negava
Da minha alma jorraram o sangue dos meus preconceitos
Jorraram muito mais do que sangue
Jorrou tudo aquilo
Que num outro corpo fecundaria
E nova vida geraria
E que morte súbita na minha mente me trouxe
Mas também vida junto dela
Senti-me morto no que me senti vivo
Senti-me vivo no que me senti morto
Morto pelo pecado cometido
Mas aliviado por ter gozado
Gozado pelo pecado praticado
Senti-me livre por ter transgredido
Não estava eu habituado
Com aquilo que lhe era habitual
Fui tocado
Como nenhuma mulher
Antes havia ousado
Fui doutrinado
Como nenhuma mulher antes havia tentado.
Renasci pros meus demónios
Pros antigos instintos
Pra novos afetos.
Crenças particulares
Princípios ostentados
Inconscientemente pela vaidade intelectual
E por manobras defensivas
Foram massacrados violentamente
Pela força dos desejos
Pela dor da solidão
Pelas fomes e apetites
Que transcendem
As necessidades fisiológicas
São fomes psicológicas que somatizam
Que definham a mente
E quase sempre criam desvios
Que satisfeitos são nas perversões.
A descoberta da zona erógena
Afetou minha identidade
Espelhos se quebram todos os dias
Mas não precisei queimar ou rasgar
Muito menos abolir meus papéis sociais
Minha couraça muscular está mais leve
Porém mais inimigos angariei
Hoje tenho dupla nacionalidade
Passaporte pro fogo do inferno
Ou quem sabe pra além da eternidade
Troquei o estoicismo pelo hedonismo
A perfeição pela plenitude
A monotonia do mundo dos mortos
Pelos riscos dos mundo dos vivos
Vivam os vivos e suas descobertas
Eu renasci e ressuscitei
Casei e me divorciei
Nas peripécias da vida adulta
A zona erógena eu encontrei.



Tiago Tamburu Bressan