Quando eu nasci
Aprendi a ser o que eu não sou
Fui o barro disforme
Nas mãos de ferro
De um ditador
General de cinco estrelas
Manipulador moral
Cruel e sagaz
Sádico e pedófilo
Corrupto e oportunista
Fui sua cobaia
Uma de suas experiências
Ele me ensinou a reprimir
Sentimentos e lágrimas
E a expurgar o ódio
Todo tipo de violência e insanidade
Exceto contra ele
Contra suas idéias
Pois quando isso eu tentei
Tão logo me ensinou a sentir culpa
Usando a família de escudo
Pra que eu não o pudesse superá-lo
Castrador de lágrimas, de afetos
De sentimentos
Dizia que homem não chora
Mas eu tinha lágrimas
Como era triste e doloroso
Tentar fingir que o amava
Ter que fingir que dormia quando ele chegava
Mudar de canal quando o ouvia se aproximar
Eu tinha vergonha que ele criticasse meus programas
Os meus pequenos prazeres juvenis
E ele sempre o fazia com excesso de desprezo
Já pensei em matá-lo enquanto dormia
Mas se fosse matá-lo
Queria ele acordado
Pra que sentisse a dor que senti
Calar-me era sua meta
Rebaixar-me o seu prazer
Hoje ele se encontra em uma cadeira de rodas
Preso em seu próprio corpo
Eu sou acusado de violência contra idosos
Tentando me fazer homem
Papai é idoso aos olhos alheios
Mas não sob os meus
Eu me odeio por detestar papai
E ter tanto dele em meu interior
Essa revolta, essa dor
Ou eu reprimia ou extravasava
No passado eu reprimia
Hoje eu extravaso
Tirei os movimentos de papai
Pois papai não me deixou crescer
Tentando me fazer crescer do seu jeito
No seu tempo, à sua maneira
Ele me encolheu
Papai me batia fardado
Hoje eu visto a farda dele e o espanco
Urino nele
Dou–lhe choques
Não lhe deixo dormir
Ponho auto falantes em alto volume em seu ouvido
Taco-lhe sal nos olhos
Eu não quero que papai morra
Pois hoje estou aprendendo sobre meus sentimentos
Hoje eu bato quando ele chora
Não respeito suas dores
Como ele não respeitou as minhas
Abafe-as, sublime-as como ele me dizia
Hoje sou eu que as reproduzo
Seja homem papai
Homem não chora
Hoje sou eu quem lhe digo
Ele sabia do meu amor por mamãe
E dizia que ela era uma puta
Aquilo me doía tanto
Hoje eu falo o que ele nunca soube
O que nunca soube sobre mamãe
Hoje promovo orgias diante do monstro
Com todas as aberrações possíveis
Até fluidos orgânicos da anatomia masculina papai provou
Fluidos de negros e gays
Que ele sempre detestou
Hoje eu visto papai de rosa e pinto-lhe a face com as maquiagens de mamãe
E o deixo horas diante do espelho
Já que me levava em puteiros
Obrigando-me a deitar-me com mulheres que eu não desejava
O monstro criou herdeiros
A criatura voltou-se contra o criador
Causa e efeito
Ação e reação
Obsessor encarnado
Ele foi o meu um dia
Hoje eu sou o seu
Não quero que papai morra
Vou cuidar bem dele
Quero papai bem vivo
E sou eu quem decido
Eu quero por um longo tempo
Brincar de ser papai de meu papai
Eu venho aos poucos mutilando papai pacientemente
Mutilações não físicas
Assim como foram suas mutilações para comigo.
TIAGO TAMBURU BRESSAN

