
Algumas pessoas que prestam
Dizem que com as quais converso não prestam
Mas quem não presta me estendeu as mãos
Olhou-me nos olhos
Sorriu e me apertou a mão
Ofereceu seu ombro
Compartilhou seus medos
Lançou suas dúvidas
E me abriu seu coração
Mas quem presta
Não me olhou nos olhos
Virou-me a face
Negou intimidade
Fez-se celebridade
Posou de autoridade
Num mundo de corrupção
Talvez por isso prestem
Por nunca se prestarem a nada
Talvez por isso que os outros não prestem
Por se prestarem, por exporem sua humanidade
Que é a nossa humanidade
Os cultos a chamam de ridícula
Trocam o termo temeridade
Por austeridade
Poesia vitoriana
É fácil falar de coisas
Que nunca viram
Que nunca viveram
Que nunca ousaram sentir
Coisas que sempre viraram as costas
Pra se omitir
É muito fácil ter virtude na fartura
Fama nas costas alheias
Ser santo em um meio suntuoso
Mas pra quem não tem as senhas
Que permitem os acessos
Acessos que são bloqueados
Pelos meios e genes herdados
Sadicamente, dizem eles
Que tudo é possível
Que quando a gente quer
A gente consegue
Que querer é poder!
Como conseguir
Se o que nos motiva a querer me foi tirado?
Sou filho do Pai
Do pai que estuprou a puta que me pariu
Cresci num meio que me reduziu
Fui criado pelo acaso, pelo descaso
Nutrido pelo vazio
Gerado na dor
Excluído do útero por drogas que não me mataram
Jogado no lixo
Achado no esgoto
Sinto-me não como se fosse sido gerado
Mas defecado, vomitado
Descartado como algo já usado, sem valor
Hoje a indiferença já não faz mais diferença
Não vejo horizontes
Fazer planos me causam medo
Temo o fracasso
Prefiro não sentir de novo
O que sinto agora
Sinto dor, sinto o odor da derrota
Feito encosto em minha alma
Sinto a crueldade das pessoas em me expor
Com seus espelhos nunca voltados para si
Eu gosto de gente que nem eu
Os excluídos, os fracassados, os dementes, os sem dentes
Solitários, desesperados, dependentes
Gente que não pode almejar nada além do prazer
Instantâneo, imediato, entorpecedor, curador, destrutivo
Busco tudo com o que me identifico
Eu vim, eu vivo no lixo
Na miséria moral
Sou um leproso contemporâneo
Um suicida social
Se não podes me estender a mão
Por favor, não me critique, não me acuse
O teu silêncio esconderá tua hipocrisia
E eu não me sentirei culpado
Em minha agonia
Se me negam o básico que não tenho
Permitam-me o mínimo que tento encontrar
Se me negam o mínimo que lhes sobram
Permitam-me dissecar meus cadáveres
Revirar meu lixo
Saborear minhas fezes
E vomita-la depois
Permitam-me senhoras e senhores
Rir da minha própria desgraça
Aceitar o bizarro da existência
Num tom de inocência com ar juvenil
Deixem-me viver em paz
Com a paz que posso sonhar
Paz... mesmo sem pão
Pão da carne, pão da alma
Carne e alma
Que agora se despede
Pra comer do lixo
Que vocês admiram
Enquanto teóricos
Lixo que lhes deram notoriedade
Que os transformaram
Lixo que não sai da boca de vocês
A minha miséria os enriqueceu
Graças a ela na TV vocês aparecem
Lixo que no livro vocês leram
Mas que na vida real quem come sou eu
Pobre gosta é de luxo
Mas vive no lixo
Quem gosta de miséria é intelectual
Mas gostam porque lhes trazem o luxo
Vivem à custa do meu lixo
Sou o santo a ser venerado
A imagem a ser idolatrada
Sou o discurso das elites
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