sábado, 25 de julho de 2009

ELE E ELA




















Ele acreditou nela

Quando ela não acreditava em si mesma

Ele acreditava nela

Porque ele precisava de alguém que acreditasse nele

De alguém que o valorizasse

Pois ele não se via com valor

Sentia-se um livro empoeirado na estante

Um livro caro, raro.

E o pior, jamais lido, jamais tocado

Trocado por propagandas inúteis de TV

Antes fosse, pensava ele

Um livro trocado, pelo menos usado

Antes mal tratado

Do que nunca lido ou ignorado

Ele errou com ela

E ela o perdoou

Pois dizia ela que o amava

Mas na verdade

Ela ainda não acreditava em si

Ainda não se amava o bastante

A ponto de se conhecer

E reconhecer

Que seu sentimento para com ele

Era o típico caso

Da relação do aleijado com a muleta

Ela não havia crescido o bastante

Para conseguir discernir

Amor de masoquismo

Amor de dependência

Amor de projeção

Amor de carência

Amor de jogos

Amor de paixão

Amor de negócios

Ela habitou os sonhos dele

Enquanto ele não tinha sonhos próprios

E ele a isso se habituou

Enquanto não havia habituado-se a si mesmo

Ela só foi a mulher da vida dele

Enquanto ele não fora um homem emancipado

Mas um fragmento, um arquétipo do complexo de Édipo

Enquanto ela não tinha vida própria.

Ele era o sonho dela

Já que ela tinha medo de ousar

Medo de sonhar por si mesma

Ele era a vida dela

Pois a vida dele, por ele, ela vivia

Ele, ela controlava

Mas jogava, justificando-se

Dizendo que o amava

E ele jogava

Fingindo que acreditava

Tudo para ela, ele controlar

Enquanto de gente grande ela brincava

Brincava, ela, de controlar os outros

Pois sobre si controle nenhum possuía

De pai e sádico ele brincava

Enquanto pai, deixava-a crescer

Vigiando-a brincando de poder

Enquanto sádico sustentava um desvio perverso

De gozar ao engana-la

Vingando-se assim da própria mãe já morta que ainda não morreu

Na figura de uma outra mulher

Médium necrófilo num processo anímico

Médico e louco

Que falseou inconscientemente

Sua própria doença e insanidade

Ele se formou em psicologia e psiquiatria

Ela se tornou pedagoga e assistente social

Eles acreditam que pelo conhecimento adquirido

sublimaram-se

Ela faz análise com ele

Ele já não se masturba tanto

Mas fuma muito mais.




Tiago Tamburu Bressan


2 comentários:

  1. Pavor do amor idealizado...
    Pavor do meu próprio ceticismo [não faz o menor sentido usar pronomes possessivos, porque você não me conhece].
    Freud explica.

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  2. Gostaria que não Freud, mas vc Clara, se abrisse ou se explicasse.
    De forma alguma tirar a importância da obra Freudiana, mas, interessa à Construçao do Pensamento gente igual à vc e não igual à Freud.
    Já estamos cegos de tanta luz, como no ensaio sobre a cegueira de Saramago.
    Quanto a te conhecer eu não conheço, mas posso se vc quiser!
    Este blog é a minha casa, e pode ser a sua, a nossa, portanto aqui estou.
    Bata à porta que te atenderei.

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