terça-feira, 30 de junho de 2009

A MULHER DO EGO

























Desejo você, mulher do ego

Que habita as entranhas do meu ser
Essa sua suave tristeza tem algo de doce
A dor que te define me engrandece
Me enobrece, me envaidece
Me capacita viver a vida real
Tão banal e passageira
Sou infiel
Traio você com meus efémeros amores do mundo real
Meu corpo vivo
Me faz permanecer no profano da existência
A esperança da morte é alcançar o pódio do sagrado
E as profundezas do meu ser
Quantas mulheres do mundo, no mundo
Já deixei por não te encontrar
Você ofusca as mulheres
Me alerta pras mentiras que nelas quero crer
E pras verdades que nelas não quero enxergar
Como uma mãe repressora, dominadora e ciumenta
Que não deixa o filho crescer
Você interfere em minhas escolhas reais
Me mostrando o quanto é vil o que não seja como você
Tudo o que não tenha o charme do teu intelecto
Nem a beleza do teu coração
Realmente você me faz infeliz
Narcisicamente tão feliz
Que me sinto culpado
Por ser tão amado pelo teu ciume
Irado por permanecer estagnado em sua teia viscosa
Oh esperança, me traz a morte se eu tiver sorte
E com ela livra-me do pecado enraizado como um tumor malígno
Nefasta existência já quase assexuada
Andrógena personalidade já quase constatada
De solidão em solidão
Vou colecionando vícios que me garantam
Que respondam ao meu vazio
Que me deem representatividade
Que camuflem dos olhos alheios a minha dor
São as malditas máscaras
Que de forma vã substituem
A crença minha de fusão
De imortalidade da alma pela via do teu amor
Teu amor é a minha paixão
Tu está em minha essência
Tua busca é minha bendita
Minha maldita religião.


Tiago Tamburu Bressan



sábado, 20 de junho de 2009

SÓ SEU CORPO NÃO NOS GARANTE











Você diz que eu não te amo
Mas como posso te amar
Se não sei quem és?
Você diz que temos afinidades
Mas se a temos
Onde está nossa intimidade?
Relegada ao sexo tão somente?
Como me cobras fidelidade
No sentir, no desejar
Algo tão completo
Se em meus braços te tenho apenas esquartejada?
Se queres respeito ou segurança
Você deve se amar
Garimpar a ti mesma pra encontrar
Se não te sinto por completo
Como vou te admirar?
Como vou te admirar
Se não te tenho acesso?
Acesso ao que podemos dividir
Acesso ao que podemos compartilhar
Como é deprimente ver tua fuga sempre em círculos
Sempre dentro da mesma cela
Voltando sempre pro mesmo lugar
Aí eu me pergunto:
Porque ainda estou ao teu lado?
Pela beleza do teu corpo
E por te-lo, por deseja-lo
Você se ilude, acredita ser isso
Motivo suficiente pra te amar e te desejar
E dentro da tua estreita visão
Motivo maior de sustentabilidade da relação
Você me diz que quem ama é fiel
E eu amo o teu corpo
Portanto, só a este serei fiel
Fiel eu sou por ser fraco
De não romper com a carne
Que tão somente a carne me satisfaz
Eu te dou em quantidade
A quantidade que você suporta receber
Eu só te enxergo até onde você permite
Não me cobre reconhecimento ou valor
De algo que em si teme conhecer
E não me venha apenas com tua beleza tentar me convencer
Não tente comprar minha alma
Com teu belo corpo
O corpo belo acaba um dia
Enquanto a beleza da alma vai perdurar
Tua proposta é um mau negócio
Por isso me empresto
Me testo nessa relação
Você diz que eu não presto
Enquanto se empresta de galho em galho
Eu sou mais um no rol das suas relações
Você deprimida, culpada
Julgada e condenada por si mesma
Condenada comigo pelo mesmo crime
Você se enxerga e vê que também não presta
Não me cobre um valor de alma
Se só sabe seduzir-me pela via do corpo
Porque me condena por comer da comida pela qual você me alimenta?
Por favor, não me peça elogios
Por algo que você não tem
Por algo que você não é
Não me exija coisas
Que você mesma não possa me dar
Mas por favor, não tente me dar
Aquilo que você não tem
Só pra ter de mim o que deseja
Nem tente ser aquilo que você não é
Pra tentar fazer de mim o que eu não sou
Só seu corpo não é o bastante
Só seu corpo não nos garante
E além do mais
Já cansei de me enganar
Tentando acreditar
Que era possível mascarar
Necessidades em amor
Carências em romance
Fraquezas em poesias
Dependência em compromisso
Insegurança pessoal em super valorização do outro
Chega, já cansei de me enganar
Tentando acreditar que fosse possível te amar
Chega, e mais uma vez te peço um tempo
Pra daqui algum tempo novamente retornar
Eu, em companhia da minha fraqueza
Em parceria com a minha luxúria
Também ando em círculos
E assim como você
Volto pra mesma cela
Volto pro mesmo lugar
Volto infelizmente... pro seu corpo
Não pra você.


Tiago Tamburu Bressan

OURO NA ANÁLISE

























Todos os dias antes de dormir
Penso na morte
Que posso não acordar
E que a morte seja apenas isso
Esse dormir sem despertar
Venho sonhando com rumores
De tumores que possam me atacar
Aviões colidindo
Eu voando e tão logo caindo
São os dentes que caem
Ou apodrecem
Cabelos que se enfraquecem
Orgias que não acontecem
Relógios, tsunamis, redemoinhos
Enxurradas, descargas, vendavais
Sejam tartarugas atravessando avenidas
Ou sejam funerais
Vários são os símbolos
Que uma única coisa dizem
Traduzem um único medo
Conteúdos passionais
Inseguranças emocionais
Expressas em fragmentos aparentemente banais
De acontecimentos passados e também atuais
Timbrados em imagens desconexas
Por vezes complexas
Expurgando o lixo
Que é ouro na análise
Tento remontar-me
Preparar-me pra vida
Que é se enfeitar pra morte
Como fizeram e fazem os religiosos
Vivo matando-me e renascendo
Nesta sessão infinita de auto-análise
Nela machuco-me, elucido-me
Gozo e sofro
Nela odeio a minha falsa bondade
Amo a minha maldade verdadeira
Neste ambiente onírico
A freira chupa a puta
O medo das horas célere
Aproxima-me do objeto do meu desejo
Aqui no mundo real
Objeto que representa o oposto
De tudo aquilo que me angustia
Através dos sonhos reivindico o meu direito
Quero a vida e os anjos proibidos
Que ainda tão tenros
Já se encontram caídos
Vitimizados pela cultura de massa pós-moderna
Quero voltar à antiguidade
Quero retornar à Grécia antiga
Quero ser de novo um filósofo
Que a modernidade transformou em marginal
Patologizaram a minha virtude
E me catalogaram como em ente doente
Insanidade, demência, psicopatia
São os rótulos atribuídos
Por aqueles que estudam a mente humana pela literatura
Bem mais que pelo acesso a si mesmos
Tabus existem pra serem quebrados
Essa é a expressão máxima dos pornógrafos.


Tiago Tamburu Bressan


CONSTATAÇÃO ONÍRICA















Meus sonhos dizem-me quem sou
Sagrado e profano se confessam
Se completam
Numa dança insinuante
Em busca do amor
Venero a carne, venero a alma
Através dos símbolos, dos épicos
Tudo cuspido e escarrado
Meu interior violado
Nesse reino onde tudo é permitido
Onde nada é proibido
Não existe inocente, muito menos culpado
Minhas ambições descobertas
Minhas vaidades expressas
Pensamentos inconfessáveis
Desejos reprimidos por anjos proibidos
As máscaras destruídas
A vida reconstituída
Sonhos são como dedo na ferida
Sou peixe ferido
Desbravador dos oceanos
Com futuro promissor.


Tiago Tamburu Bressan




sexta-feira, 19 de junho de 2009

A CRENÇA DE UM AMOR É NA REALIDADE UMA FORTALEZA DE PAPEL

























Não é de você que sinto falta!
Sinto falta de nós!
Onde ficaram nossas conquistas?
Perdidas no tempo e no espaço?
Em algum lugar do passado?
Em algum lugar do passado você me amou
Em nossa intimidade você me desejou
Como pôde tudo se acabar assim?
Será que o luxo virou lixo?
Devo tentar a sorte em outro lugar?
Ou ao inferno da solidão me acostumar?
Um descuido meu e tudo se perdeu
O que você dizia ser amor Cristão
Eu enxergo insegurança disfarçada:
Ansiedade, desproteção, medo da solidão
Nessa relação se fui seu pai perdão
Pois enquanto você buscava segurança em mim
Eu buscava em você a minha auto-afirmação!


Tiago Tamburu Bressan

TEMPOS PASSADOS


















Tudo está tão diferente
O mundo já não me compreende
Os conceitos mudaram tanto
Que de libertário e inovador
Hoje sou arcaico e preconceituoso
Conceitos mudam o mundo
Mas o tempo muda os conceitos
O que não me mudou?
Nessa fase da vida devo me adaptar?
Os sonhos precisam mudar?
Fiquei limitado no tempo e no espaço
Perdi o meu espaço
O meu passado perdeu a glória
Sinto-me um homem fora da história
É como se a vida não respeitasse o que penso
O que estudei, o que leccionei
Hoje se transformaram em comédia e sarcasmo!


Tiago Tamburu Bressan

O HOMEM NU






















Só o homem só procura pelo homem nu.
Só o homem nu entende e aceita o homem só.
Só o homem nu nunca está nu quando está só na multidão.


Tiago Tamburu Bressan

O TEATRO DA VIDA E A SUBVERSÃO DO EGO
























Eu preciso consumir
Pra que a dor da desilusão não me consuma
Minha consciência vaga nos guetos do pecado
De um passado mal vivido
Nascido na dor de um conflito
Eu vivo hoje
Dividido entre o caos de dois estandartes
Será que essa guerra terá fim?
Mesmo sendo jovem sinto estar no fim
O corpo vivo, a alma morta
Pra me defender
Busco ser o que eu não sou
Pra ninguém me descobrir
Vivo armado, afiado, personificado de guerreiro
Tento ser forte
Mas por baixo do elmo
A lesão é grande
A energia oscilante
Por isso transformo utopias em ideais
Os pais em marginais
Conceitos perigosos são os que mais me apraz
Mas eu prometo
Essa noite tudo terá fim
Essa noite tudo terá fim
Tudo!


Tiago Tamburu Bressan