quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

11 DE SETEMBRO CARNAL














A minha vida desregrada acusa

Que os meus castelos de areia já se desfizeram

Que uma nuvem negra vive a me rondar

E que o onze de setembro em minha carne se realizou

Eu volto para casa e entro pelas paredes

O gato no sofá é o único que me vê

O espelho não reflete mais a minha imagem

E a imagem que eu tinha de mim mesmo

E da existência não tem nada a ver

A minha mente atormentada pulsa

E aquela voz interna me acusa:

Você morreu

Você morreu!



TIAGO TAMBURU BRESSAN

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

TREINO PARA A VIDA

























Eu sou um lutador

Estou sempre lutando

Lutando contra os mais terríveis adversários

Todos são páreo duro e inescrupulosos

Isso me assusta

Mas tenho sede de vitória

Meu técnico está sempre ao meu lado

Ensinando-me cada vez mais

Fazendo de mim o melhor dos lutadores

Colocando sempre na minha frente a medalha de ouro

Mas ainda não a consegui

Terei que lutar muito por ela

Mas estou agora em uma das minhas lutas mais difíceis

Estou amedrontado, porém seguro

Meu técnico sempre ali, apoiando-me

Fui à lona várias vezes

Pensei em desistir

Porque a cada soco recebido, desanimava

Porém o meu técnico, a quem eu tanto admirava

Fazia criar asas a esperança

Dava-me forças para botar o pé no chão

Levantei, lutei, lutei e venci

Sou um campeão

E medalha de ouro

E o meu adversário ali a nocaute

Ultrapassei todas as barreiras

Estava feliz, vibrando!

Consegui ser um grande psiquiatra

Porém, um dia, uma triste notícia:

Sua mãe faleceu!

Entrei em pânico, chorei, pensei no suicídio

Tudo ao meu redor escureceu

Desse dia em diante

Todas as minhas lutas fracassaram

Perdi todas por nocaute

Pois meu técnico havia morrido

A minha segurança, a minha força

Não mais existia

Minha medalha já não era de ouro

E sim um pedaço de algo sem valor

Anos se passaram e aqui estou

De barbas e cabelos compridos, cheio de vícios

Vestido a trapos, fracassado, sem rumo

Sem razão para viver

Não consigo me levantar

Porque a luz que me iluminava se apagou

E a boca que sempre dizia a verdade se calou

No entanto, a semente ficou.



TIAGO TAMBURU BRESSAN


Texto premiado em concurso escolar de 1994

domingo, 29 de novembro de 2009

FRAGILIDADES



















Como são frágeis as construções humanas!

A fragilidade das máscaras, das acções, das relações

Como são frágeis as promessas humanas

Os compromissos firmados

A saúde, sucesso, fama e posição social.

Como são frágeis as noções de futuro

As sensações, emoções e conclusões.

Como são frágeis os sentidos criados

Pra nossa crise de desamparo

Diplomas, carreiras, masculinidades e feminismos

Adquiridos estes últimos em bancas de jornal

Pra nos desviar do foco, do desejo real.

Como é frágil e débil a fé em Deus

Como os demais castelos de areia criados.

Como é frágil o saber humano

A prepotência da aparência

Que vence a inteligência

Mas sucumbe ante a morte

Ante o envelhecer que tarda, mas não falha.

Como é frágil a existência humana com suas contradições

Garantias, certezas, vícios, controle, apego as paixões.

Filhos da onipotência humana

Não existem garantias, nem certezas.

Somente ilusões, crenças, fé... Desejo!

O que nos resta é escolher

Dentro de limitadas opções.

Tudo perece ante o imprevisto

O imprevisto disseca a nossa realidade

E nos mostra a fragilidade da felicidade, da conduta,

Da virtude, da moral, dos costumes.

Tudo sucumbe ante a necessidade:

Ideais, certezas, crenças, promessas, fé.

Tudo está à venda, tudo é negociável

Não só o corpo, mas a alma também.

Se tudo tem um preço, todo homem também.

Tudo arrefece ante a dor

Tudo o que foi dito e promessas de amor.

Na dor toda carne se afirma carne

Na tortura toda carne se trai

Na provação a verdade aflora

No sofrimento toda alma se entrega

Na pressão toda alma se retrata.

No deserto gelado da alma

Que cala ante o desejo

Que derrete o verniz que a oprime

E que se submete ao seu jugo

E ainda assim, diante das evidências nega

E pela negação, afirma o que é ser humano.

O olhar trai as palavras e o que elas dizem

O sentimento sem consentimento

Tenta alterar o teor das sensações

O substrato instintivo da mente

Vigora vida afora.

Nada está tão a mostra

Mesmo quando se mostra

Mas tudo está visível

Mesmo que aparentemente invisível.




TIAGO TAMBURU BRESSAN


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SOBREVIVENDO NO CORPO

























A escola não me ensinou nada do que eu quisesse aprender

O mundo não corresponde aos meus anseios

As mulheres frustram minhas expectativas de amor

A família deforma os ideais nobres pelos de consumo

A religião valoriza a competição e a produção

Os intelectuais não compreendem o valor da compreensão

Estou perdido, estou vazio

Na mais completa solidão.

Os vínculos são de negócios

As relações são de ordem comercial

O que me salva das tragédias anunciadas

São minhas construções internas

Vou sobrevivendo no corpo

Por pouco, aos poucos, ainda acordado.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ORAÇÃO DOS AMANTES





















Inimigo meu que estais no inferno

Lembrado eternamente por minha espada

Seja o vosso nome

Venha a mim a tua derrota

E seja feita a minha vontade

Aqui na terra quanto aí no inferno

O instinto e insultos nossos de cada dia

Fomentemos hoje

Perdoa o mal que não lhe fiz

Da mesma forma com que não perdoo

O mal que não me fizeste

E que não nos deixemos sentir a gratidão

E livremo-nos de toda a culpa

Em nome da guerra que nos une

Abençoados sejam os afectos sentidos

Pelo romance entre os inimigos.


Que assim seja!



Tiago Tamburu Bressan

sábado, 24 de outubro de 2009

ANFITRIÃ DE CORPOS *

























No silêncio da noite escura
A solidão me tortura
Suscitando em minha alma apegada aos devaneios
A tão sonhada cura.
Mas quero representar a mulher moderna independente
Emancipada apenas economicamente
No mundo externo da esfera social.
Reprimida alma encarnada
Na mais densa e insana lama obscura
Assim sou eu em minhas fantasias eróticas
Fascinada pela subserviência aos generais
Aos agressores nocturnos
Que ostento em pensamentos, nas noites frias.
Na solidão das noites frias
Minha alma em chama clama por pecado.
Os porões do inferno foram abertos
Quando neguei meus desejos
Quando em vão tentei sublimar meus instintos
Quando paguei caro e comprei pronto o mito da maternidade
Que na realidade não se aplica a toda mulher
E compensar com objectos inanimados meus desejos carnais.
Desde então não tenho paz!
Almas da minha alma são um tanto sagaz
Em mostrar minhas mentiras
As minhas falsas construções
E corromper meus nobres ideais.
Ideais do ego consciente
Da bem comportada mulher decente.
Sou uma crente, mulher carente
Mulher que teme
Mulher que mente.
Que mente descaradamente
Perante um espelho
Que sempre se quebra
Ao contemplar uma imagem desgastada
Corroída pela acção do tempo.
Tempo que não tenho pra me permitir sentir
Tempos que há tempos se foram
E que não voltam mais.
O mundo das ideias vem tomando forma
No mundo das formas.
Os conteúdos reprimidos vêm tomando conta.
A dama da noite que me habita clama por liberdade e devassidão
E eu não estou dando conta
De acorrentar minha obsessão.
A repressão é o estimulante do desejo!
Neste momento real
De nada me servem os livros
Ou a literatura ostentada sagradamente durante anos.
Nem a bíblia sagrada parece mais me enganar.
Nada aplaca a fúria da libido com seu fluxo contínuo
Seja banho frio, chicotinho ou espinheiro santo.
Eu me toco e gozo
Na solidão que me caratecteriza.
Eu choro, respiro profundamente
E volto pras minhas mentiras mundanas
Mentiras mundanas da mulher contemporânea.
Aliviada do stress do desconforto das águas represadas
Volto a ser mãe, avó, matrona.
No mundo das aparências
Novamente encarno as resistências
De advogada, oradora, terapeuta
Professora e educadora
Voltando a ser de novo o que todos esperam de mim.
Auto-prazer é uma mentira
O amor talvez não exista
Talvez uma invenção dos poetas
Pra levar donzelas pra cama.
O sexo por prazer também me sacia a alma
Embora eu negue.
Sou um fantasma que vaga em dois planos
Tentando encontrar o que talvez não exista
Em nenhum dos dois.
E enquanto eu não encontro
Enquanto eu não desisto
Eu também não existo.
Enquanto não me emancipo
Preciso de membros pra me elevar a estima
Membros pra me fazer dormir
Membros pra me ressuscitar.
Nesse momento o fel é mel
A dor é prazer
A força é carícia
Em meus ouvidos palavrões se tornam poesias
O profano me é sagrado.
Distorção afectiva?
Na profundidade do meu ser
Anseio por ser a Anfitriã de corpos
Que no mundo das formas nunca existiu.
Mas é ela quem vos fala agora
Desse imenso oceano represado
Que embora desprezado
Sempre existiu... Sempre sentiu!
Nesse momento o verbo se faz carne
A mulher vitoriana se torna libertária
Os aspectos étnicos, sociais e económicos com seus preconceitos
Deixam de existir.
Nesse momento eu não tenho preferências
Eu aceito quem me quer
Eu sou de quem me deseja
Eu desejo quem me possuir.
E com muita resistência
Eu aceito que talvez eu ame
Seja homem ou mulher
O ser que me faça existir!


TIAGO TAMBURU BRESSAN

sábado, 17 de outubro de 2009

O CORPO DO FILHO *




















Nem sempre concordamos conosco
Embora mintamos a nós mesmos
E aos outros sobre isto.
Assim sendo
Porque iríamos concordar com os outros?
Os outros são partes de nós
E muitas vezes
Partes de nós que não queremos aceitar
Ser, ver, muito menos entender
Justamente por temer.
Por isso quero uma vela!
Pois esta noite eu vou ao meu enterro
Velar o que se apartou de mim
Vão prestar culto ao que em vida
Sempre cultuaram em mim
Mas não o que eu cultuei.
Nesta noite será visto
Apenas aquilo que sempre quiseram ver.
Continuarei vivo pra mim
Parecendo morto pra eles
Enquanto era vivo na carne
Parecia eu morto para eles
Agora que morre a carne
Estou vivo pra eles
Vivo entre eles.
Enxuguem suas lágrimas
Apaguem suas velas
Pai, mãe, suas lágrimas estão afogando-me
Suas velas estão me queimando
Pai e mãe, em súplica lhes peço
Se acalmem, não se culpem
Não sejam egoístas
Não lamentem minha ausência física
Se amem para aprenderem a me amar
Se perdoem para conseguirem me perdoar
Deêm-nos uma chance
Fiquem em paz
Pra me deixarem em paz
Cresçam e aceitem a realidade
Do acontecimento mais natural da vida:
A MORTE!
Porque tanto desespero
Se sempre soubemos disso?
Quanto despreparo em vida
Perdidos em gozos, conforto
E bens materiais
Riquezas que duram um dia
Perante a eternidade.
Meus filhos, que estão meus pais
Não se afoguem em poças d´agua
Não chorem
Vivam e reflitam.
Não chorem, nem se lastimem
Prossigam!
Pois a vida não acabou para nós
Pois ela, a vida...Continua
Continua pra nós, além de nós
Continua velada ou nua
Pro mundo... E além do mundo.


Tiago Tamburu Bressan

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A DESCOBERTA DA ZONA ERÓGENA *

























Certo dia
Bom ânimo me tomava
Sensibilidade à flor da pele
Conduzia-me as aspirações
Transbordava em minha alma
O desejo por contato
A ânsia por encontros fraternos
Ver e ser visto
A necessidade do toque era imperativa
Tocar coisas vivas e pulsantes
Coisas que sangrem e tenham calor
Coisas que sintam dor
Era a necessidade de viver e tocar
Coisas vivas que vão morrer
Mas o desprezo e a crueldade deles para comigo
Pegaram-me sobre maneira
Estilhaços de frieza e desdém
Feriram-me a alma
Sozinho então saio às ruas
Eis que encontro alguém bela
Anatômicamente idêntica
Morfologicamente diferente de mim
Algo conhecido aos meus olhos
Mas até então desconhecido,
Negado ou temido pelo coração
Talvez reprimido
E porque não recalcado
Pelas leis morais da razão
Dessa pseudo sociedade em construção.
Sabia eu
Que aos meus anseios responderia
Era alguém que assim como eu
Encontrava-se ao influxo da bebida
E sob seu açodar
Afrouxaram-se minhas armaduras morais
Meus escudos psíquicos
Socialmente construídos, reproduzidos e interpretados
E a desejar estava aquilo que sempre neguei
Aquilo que durante toda a minha vida critiquei,
Persegui, combati, fugi ou zombei
Toquei enfim algo que sangrava!
Quando toquei o que naquela noite buscava
Mas que daquela forma sempre negava
Da minha alma jorraram o sangue dos meus preconceitos
Jorraram muito mais do que sangue
Jorrou tudo aquilo
Que num outro corpo fecundaria
E nova vida geraria
E que morte súbita na minha mente me trouxe
Mas também vida junto dela
Senti-me morto no que me senti vivo
Senti-me vivo no que me senti morto
Morto pelo pecado cometido
Mas aliviado por ter gozado
Gozado pelo pecado praticado
Senti-me livre por ter transgredido
Não estava eu habituado
Com aquilo que lhe era habitual
Fui tocado
Como nenhuma mulher
Antes havia ousado
Fui doutrinado
Como nenhuma mulher antes havia tentado.
Renasci pros meus demónios
Pros antigos instintos
Pra novos afetos.
Crenças particulares
Princípios ostentados
Inconscientemente pela vaidade intelectual
E por manobras defensivas
Foram massacrados violentamente
Pela força dos desejos
Pela dor da solidão
Pelas fomes e apetites
Que transcendem
As necessidades fisiológicas
São fomes psicológicas que somatizam
Que definham a mente
E quase sempre criam desvios
Que satisfeitos são nas perversões.
A descoberta da zona erógena
Afetou minha identidade
Espelhos se quebram todos os dias
Mas não precisei queimar ou rasgar
Muito menos abolir meus papéis sociais
Minha couraça muscular está mais leve
Porém mais inimigos angariei
Hoje tenho dupla nacionalidade
Passaporte pro fogo do inferno
Ou quem sabe pra além da eternidade
Troquei o estoicismo pelo hedonismo
A perfeição pela plenitude
A monotonia do mundo dos mortos
Pelos riscos dos mundo dos vivos
Vivam os vivos e suas descobertas
Eu renasci e ressuscitei
Casei e me divorciei
Nas peripécias da vida adulta
A zona erógena eu encontrei.



Tiago Tamburu Bressan

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

REBENTO REBELDE *


















Quando eu nasci

Aprendi a ser o que eu não sou

Fui o barro disforme

Nas mãos de ferro

De um ditador

General de cinco estrelas

Manipulador moral

Cruel e sagaz

Sádico e pedófilo

Corrupto e oportunista

Fui sua cobaia

Uma de suas experiências

Ele me ensinou a reprimir

Sentimentos e lágrimas

E a expurgar o ódio

Todo tipo de violência e insanidade

Exceto contra ele

Contra suas idéias

Pois quando isso eu tentei

Tão logo me ensinou a sentir culpa

Usando a família de escudo

Pra que eu não o pudesse superá-lo

Castrador de lágrimas, de afetos

De sentimentos

Dizia que homem não chora

Mas eu tinha lágrimas

Como era triste e doloroso

Tentar fingir que o amava

Ter que fingir que dormia quando ele chegava

Mudar de canal quando o ouvia se aproximar

Eu tinha vergonha que ele criticasse meus programas

Os meus pequenos prazeres juvenis

E ele sempre o fazia com excesso de desprezo

Já pensei em matá-lo enquanto dormia

Mas se fosse matá-lo

Queria ele acordado

Pra que sentisse a dor que senti

Calar-me era sua meta

Rebaixar-me o seu prazer

Hoje ele se encontra em uma cadeira de rodas

Preso em seu próprio corpo

Eu sou acusado de violência contra idosos

Tentando me fazer homem

Papai é idoso aos olhos alheios

Mas não sob os meus

Eu me odeio por detestar papai

E ter tanto dele em meu interior

Essa revolta, essa dor

Ou eu reprimia ou extravasava

No passado eu reprimia

Hoje eu extravaso

Tirei os movimentos de papai

Pois papai não me deixou crescer

Tentando me fazer crescer do seu jeito

No seu tempo, à sua maneira

Ele me encolheu

Papai me batia fardado

Hoje eu visto a farda dele e o espanco

Urino nele

Dou–lhe choques

Não lhe deixo dormir

Ponho auto falantes em alto volume em seu ouvido

Taco-lhe sal nos olhos

Eu não quero que papai morra

Pois hoje estou aprendendo sobre meus sentimentos

Hoje eu bato quando ele chora

Não respeito suas dores

Como ele não respeitou as minhas

Abafe-as, sublime-as como ele me dizia

Hoje sou eu que as reproduzo

Seja homem papai

Homem não chora

Hoje sou eu quem lhe digo

Ele sabia do meu amor por mamãe

E dizia que ela era uma puta

Aquilo me doía tanto

Hoje eu falo o que ele nunca soube

O que nunca soube sobre mamãe

Hoje promovo orgias diante do monstro

Com todas as aberrações possíveis

Até fluidos orgânicos da anatomia masculina papai provou

Fluidos de negros e gays

Que ele sempre detestou

Hoje eu visto papai de rosa e pinto-lhe a face com as maquiagens de mamãe

E o deixo horas diante do espelho

Já que me levava em puteiros

Obrigando-me a deitar-me com mulheres que eu não desejava

O monstro criou herdeiros

A criatura voltou-se contra o criador

Causa e efeito

Ação e reação

Obsessor encarnado

Ele foi o meu um dia

Hoje eu sou o seu

Não quero que papai morra

Vou cuidar bem dele

Quero papai bem vivo

E sou eu quem decido

Eu quero por um longo tempo

Brincar de ser papai de meu papai

Eu venho aos poucos mutilando papai pacientemente

Mutilações não físicas

Assim como foram suas mutilações para comigo.



TIAGO TAMBURU BRESSAN


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O NOVO ÉDIPO *




















Não quero te-la

Temo deseja-la

Como um quadro

Que de duas formas pode ser visto

Assim pode ser ela

Assim ela pode ser vista

Em meus medos assim ela já é

Não, eu temo não resistir

Ao poder da libido

Ao desejo inconfessável

Ao ciúme indefinível

Ao sentimento indecifrável

Esse sentimento possessivo é doentio

E até mesmo viril

Em relação a ela tudo é dual:

Desejo e ternura

Felicidade e amargura

Ela parece carregar consigo

A vida e a morte

E ela ainda nem existe

A não ser em meus dois desejos

Desejo e medo

Mulher e criança

Sanidade e loucura

Pensar nela me tortura

Desgraça ou salvação

Busco minha intuição

Meu sexto sentido

Pra definir o que sinto

Penso em me cegar

Como Édipo se fez

Mas não em relação à própria mãe

Mas sim em relação à própria filha.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A GRANDE TEIA DO CAOS HUMANO



















O ego transgride a ética

O medo permeia as relações

O desejo subjuga a razão

A posse substitui os ideais nobres

Produtos substituem afeto

O dinheiro mascara a dor

O lucro define os porquês

O questionamento é mero coadjuvante

Nessa indústria de certezas descartáveis

O mercado é juiz corrompedor da espontaneidade

O consumo, o mais novo líder espiritual da insanidade humana

Os produtos são nossos Deuses

Deus sempre foi um produto dos homens

Os homens são produtos de Deus?

Nessa fábrica de ilusões

Nesse domínio de incertezas

Nosso corpo é referêncial de prazer

É resposta ao suicídio dormente

Da alma combalida e perturbada

Pela ausência de respostas concretas

Na fartura de conceitos insólitos

Profundo nas palavras, superficial no conteúdo.

Altos ideais, baixa moralidade.

Promiscuidade familiar, religiosa, política e científica.

Os bordéis sempre foram perseguidos, mas sempre freqüentados.

Discriminados injustamente por aqueles que são os mais bem tratados

Rotulados de profano por aqueles que o freqüentam

Por aqueles que no íntimo o julgam sagrados

Somos almas cadavéricas em corpos torneados

Buscando as chaves de portas que tememos abrir

Vivendo de preconceitos que queremos abolir

A existência foi reduzida a gozo excessivo e diversão

Onde estão os soldados feridos não prostituídos?

Os resistentes a não conformação?

Os grandes revolucionários são abortados na grande teia

Induzidos por ela a se embriagarem no vinho

Acreditando serem livres nos excessos

Na limitada existência dos sentidos físicos

Você talvez não saiba que está em uma grande teia

E que a grande aranha te vampiriza

Exorciza na fonte os teus desejos de libertação

E te faz acreditar viver na realidade

Quando na realidade se vive a ilusão

Saia deste aquário e busque o mar.

Saia desta caverna e sinta o ar.



Tiago Tamburu Bressan

sábado, 29 de agosto de 2009

EXCLUSÃO PRÉ PARTO


















Algumas pessoas que prestam

Dizem que com as quais converso não prestam

Mas quem não presta me estendeu as mãos

Olhou-me nos olhos

Sorriu e me apertou a mão

Ofereceu seu ombro

Compartilhou seus medos

Lançou suas dúvidas

E me abriu seu coração

Mas quem presta

Não me olhou nos olhos

Virou-me a face

Negou intimidade

Fez-se celebridade

Posou de autoridade

Num mundo de corrupção

Talvez por isso prestem

Por nunca se prestarem a nada

Talvez por isso que os outros não prestem

Por se prestarem, por exporem sua humanidade

Que é a nossa humanidade

Os cultos a chamam de ridícula

Trocam o termo temeridade

Por austeridade

Poesia vitoriana

É fácil falar de coisas

Que nunca viram

Que nunca viveram

Que nunca ousaram sentir

Coisas que sempre viraram as costas

Pra se omitir

É muito fácil ter virtude na fartura

Fama nas costas alheias

Ser santo em um meio suntuoso

Mas pra quem não tem as senhas

Que permitem os acessos

Acessos que são bloqueados

Pelos meios e genes herdados

Sadicamente, dizem eles

Que tudo é possível

Que quando a gente quer

A gente consegue

Que querer é poder!

Como conseguir

Se o que nos motiva a querer me foi tirado?

Sou filho do Pai

Do pai que estuprou a puta que me pariu

Cresci num meio que me reduziu

Fui criado pelo acaso, pelo descaso

Nutrido pelo vazio

Gerado na dor

Excluído do útero por drogas que não me mataram

Jogado no lixo

Achado no esgoto

Sinto-me não como se fosse sido gerado

Mas defecado, vomitado

Descartado como algo já usado, sem valor

Hoje a indiferença já não faz mais diferença

Não vejo horizontes

Fazer planos me causam medo

Temo o fracasso

Prefiro não sentir de novo

O que sinto agora

Sinto dor, sinto o odor da derrota

Feito encosto em minha alma

Sinto a crueldade das pessoas em me expor

Com seus espelhos nunca voltados para si

Eu gosto de gente que nem eu

Os excluídos, os fracassados, os dementes, os sem dentes

Solitários, desesperados, dependentes

Gente que não pode almejar nada além do prazer

Instantâneo, imediato, entorpecedor, curador, destrutivo

Busco tudo com o que me identifico

Eu vim, eu vivo no lixo

Na miséria moral

Sou um leproso contemporâneo

Um suicida social

Se não podes me estender a mão

Por favor, não me critique, não me acuse

O teu silêncio esconderá tua hipocrisia

E eu não me sentirei culpado

Em minha agonia

Se me negam o básico que não tenho

Permitam-me o mínimo que tento encontrar

Se me negam o mínimo que lhes sobram

Permitam-me dissecar meus cadáveres

Revirar meu lixo

Saborear minhas fezes

E vomita-la depois

Permitam-me senhoras e senhores

Rir da minha própria desgraça

Aceitar o bizarro da existência

Num tom de inocência com ar juvenil

Deixem-me viver em paz

Com a paz que posso sonhar

Paz... mesmo sem pão

Pão da carne, pão da alma

Carne e alma

Que agora se despede

Pra comer do lixo

Que vocês admiram

Enquanto teóricos

Lixo que lhes deram notoriedade

Que os transformaram em celebridade

Lixo sobre os quais vocês discorrem muito bem

Lixo que não sai da boca de vocês

A minha miséria os enriqueceu

Graças a ela na TV vocês aparecem

Lixo que no livro vocês leram

Mas que na vida real quem come sou eu

Pobre gosta é de luxo

Mas vive no lixo

Quem gosta de miséria é intelectual

Mas gostam porque lhes trazem o luxo

Vivem à custa do meu lixo

Sou o santo a ser venerado

A imagem a ser idolatrada

Sou o discurso das elites

O herói dos intelectuais!


Tiago Tamburu Bressan

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

DEFINIÇÕES

























MORTE: Extensão da vida.

VIDA: Preparação para a morte.

DEUS DA IGREJA: Um dogma, um conceito pop para um público infantil.

O homem criou Deus a sua imagem e semelhança, e não o contrário.

DEUS DO COSMOS: O poder pelo auto-conhecimento.

RELIGIÃO DA IGREJA: Política, poder, influência social e controlador razoavelmente bom da agressividade humana contra si mesmo o outro e a sociedade.

RELIGIÃO DO CRISTO: O compromisso com a verdade, eu com o próximo.

POVO: Nada muito diferente dos políticos, é só uma questão de oportunidades.

AMOR: A descoberta mais antiga que a humanidade ainda não encontrou.

CERTO: O desenvolver da sabedoria.

ERRADO: A preservação da ignorância.

MENTIRA: A crença de que só se ama uma vez.

PODER: O poder de não deseja-lo, a consciência de não te-lo.

VIRTUDE: Aquilo que não parece virtude.

GLÓRIA: A saúde física, mental e emocional.

FAMA: Um vento que destrói árvores, e que a todo momento muda de direção.

DINHEIRO: Útil e necessário enquanto papel, útil enquanto necessário.

POBREZA: A futilidade, o ressentimento e o preconceito.

FAMÍLIA: Algo muito além de quem julga entende-la e muito acima de quem busca

defende-la.

CONSUMO: Podemos consumir desde que ele não nos consuma.

CONFORTO: Saudável desde que não vicie.

CIÚME: Podemos possui-lo, desde que ele não nos possua.

Seu lugar é abaixo do cérebro e não no lugar do cérebro.

DESEJO: Benéfico desde que não nos corrompa e que não fira o direito do outro.

VELHICE: Experiência não é sinônimo de sabedoria, sabedoria é oque se faz com a experiência.

MULHER: Um ser humano.

MACHO: Importantíssimo para vida, mas apenas para a vida animal.

CORAGEM: É assumir pra si mesmo os próprios temores, é não mentir para si, pois mentir pra si é a pior das mentiras.

HOMEM: Só se é com sensibilidade.

HOMOSSEXUAL: Assim como nós, mais um ser humano que sente e sofre.

SEXO: Sexo, e nem sempre prazer!

ROMÂNCE: Parceria, projeto, compromisso, identificação e afinidade.

SEXO COM ROMANCE: Além dos limites do corpo.

DIVÓRCIO: Lei humana que separa legalmente perante a carne o que já se encontrava separado no espírito e no coração.

VIOLÊNCIA: Só sob controle.

PRAZER: Só é possível pela via do equilíbrio.

CRISTO: A integração com um outro nível de consciência.

META DE VIDA DO HOMEM: O domínio de si mesmo pela verdade.

DOMÍNIO DE SI MESMO: Privilégio de poucos, e trabalho para a vida toda.




Tiago Tamburú Bressan



quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A FORÇA

























A força do mestre é o discernimento

Do sábio o dom de prever

Do inteligente a estratégia

Do iniciante a humildade

Do professor o conhecimento

Do santo a renúncia

Da igreja a manutenção da culpa

Do homem comum a mulher

Do homem vulgar a vagina

Do homem sensível o amor

Do sensitivo a intuição

Do louco a realidade

Do lúcido a visão

Do profeta o além

Do egoísta a própria aparência

Do que se auto conhece, si mesmo

Do fraco o outro

Do inseguro a posse

Do fracassado a ambição material

Do carente o aplauso

Do orador a retórica

Do palhaço o público

Do actor o desconhecimento de si

Do poeta o romantismo

Do bêbado a pinga

Do cão os dentes

Do gato as unhas

Do pássaro as asas

Da pena a leveza

Do homem grande os músculos

Do grande homem a inteligência

Do chefe o cargo

Do incompetente a autoridade

Do líder os seguidores

Do político as promessas

Do rico o luxo

Do pobre a crença

Do sofredor a esperança

Do inquieto a busca

Do justo o desapego

Do bebê a inocência

Da criança a sinceridade

Da mulher também a maternidade

Do pacífico a flexibilidade

Do virtuoso a gratidão

Do verdadeiro revolucionário o bom senso

Do verdadeiro rebelde uma verdadeira causa

Do bruto o corpo

Do refinado a alma

A força do fútil é a vestimenta

Do pensador a introspecção

Do fraco a violência

Do forte o conhecimento da própria fraqueza

Do resistente é a convicção

Do homem prático o raciocínio lógico

Do teórico o discurso

Do vencedor a dedicação

Do metafísico o inconformismo

Do filósofo o questionamento

Do sonhador a abstracção

Do playboy o dinheiro do pai

Do preguiçoso a herança

Do corajoso seu auto-conhecimento

Do medroso valente a precipitação

A força do patrão está também nos funcionários

E a força dos funcionários vem do patrão.

A força de Napoleão estava em seu exército

E a força de seu exército estava em Napoleão.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

sábado, 8 de agosto de 2009

A FILOSOFIA DO FORTE




















É nobre morrer pelo outro

Porém medíocre deixar de viver para si.

Devemos conviver com o outro, e não ser o outro.

Podemos nos dedicar ao outro

Mas não vivermos em função do outro.

É importante nos entregarmos ao outro

Sem jamais perder o contato conosco mesmo.

É engrandecedor viver com o outro, mas nunca pelo outro.

É útil entregar-se à relação, e não perder-se nela.

Renunciar pode ser útil, mas anular-se será sempre danoso.

Amar será sempre útil

Mas sofrer por amor nunca será amor, portanto, inútil.

O outro não é nossa vida, nossa força

Nosso brinquedo e nem nossa meta.

O outro não deve ser o nosso ideal de vida

Ele deve ser ele mesmo, o outro.

Devemos aprender a compartilhar,

Desenvolver projetos, idéias e ideais com o outro.

O outro não é nossa garantia

Nunca foi e nunca será

Pois o outro não tem a obrigação de nos garantir

Ou de tornar estável

A nossa própria instabilidade emocional.

A função do outro em nossa vida é a de somar

Acrescentar com o que já existia em nós

Antes da sua chegada.

O problema é que poucos têm o mínimo

Que os garanta em seu próprio interior.

Como já disse, a função do outro é somar

E se o outro nada nos acrescentar,

Muito menos deve subtrair.

Nós não somos o outro e o outro não é nós,

Nós fazemos parte um do outro.

Nós somos nós e outro é o outro.

Nós devemos fazer parte da vida do outro

E outro parte de nós.

Eu preciso do outro, mas não devo depender do outro.

Minha meta sou eu, mas meu projeto somos nós.



Tiago Tamburu Bressan