quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

11 DE SETEMBRO CARNAL














A minha vida desregrada acusa

Que os meus castelos de areia já se desfizeram

Que uma nuvem negra vive a me rondar

E que o onze de setembro em minha carne se realizou

Eu volto para casa e entro pelas paredes

O gato no sofá é o único que me vê

O espelho não reflete mais a minha imagem

E a imagem que eu tinha de mim mesmo

E da existência não tem nada a ver

A minha mente atormentada pulsa

E aquela voz interna me acusa:

Você morreu

Você morreu!



TIAGO TAMBURU BRESSAN

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

TREINO PARA A VIDA






















Eu sou um lutador

Estou sempre lutando

Lutando contra os mais terríveis adversários

Todos são páreo duro e inescrupulosos

Isso me assusta

Mas tenho sede de vitória

Meu técnico está sempre ao meu lado

Ensinando-me cada vez mais

Fazendo de mim o melhor dos lutadores

Colocando sempre na minha frente a medalha de ouro

Mas ainda não a consegui

Terei que lutar muito por ela

Mas estou agora em uma das minhas lutas mais difíceis

Estou amedrontado, porém seguro

Meu técnico sempre ali, apoiando-me

Fui à lona várias vezes

Pensei em desistir

Porque a cada soco recebido, desanimava

Porém o meu técnico, a quem eu tanto admirava

Fazia criar asas a esperança

Dava-me forças para botar o pé no chão

Levantei, lutei, lutei e venci

Sou um campeão

E medalha de ouro

E o meu adversário ali a nocaute

Ultrapassei todas as barreiras

Estava feliz, vibrando!

Consegui ser um grande psiquiatra

Porém, um dia, uma triste notícia:

Sua mãe faleceu!

Entrei em pânico, chorei, pensei no suicídio

Tudo ao meu redor escureceu

Desse dia em diante

Todas as minhas lutas fracassaram

Perdi todas por nocaute

Pois meu técnico havia morrido

A minha segurança, a minha força

Não mais existia

Minha medalha já não era de ouro

E sim um pedaço de algo sem valor

Anos se passaram e aqui estou

De barbas e cabelos compridos, cheio de vícios

Vestido a trapos, fracassado, sem rumo

Sem razão para viver

Não consigo me levantar

Porque a luz que me iluminava se apagou

E a boca que sempre dizia a verdade se calou

No entanto, a semente ficou.



TIAGO TAMBURU BRESSAN


Texto premiado em concurso escolar de 1994

domingo, 29 de novembro de 2009

FRAGILIDADES













Como são frágeis as construções humanas!

A fragilidade das máscaras, das acções, das relações

Como são frágeis as promessas humanas

Os compromissos firmados

A saúde, sucesso, fama e posição social.

Como são frágeis as noções de futuro

As sensações, emoções e conclusões.

Como são frágeis os sentidos criados

Pra nossa crise de desamparo

Diplomas, carreiras, masculinidades e feminismos

Adquiridos estes últimos em bancas de jornal

Pra nos desviar do foco, do desejo real.

Como é frágil e débil a fé em Deus

Como os demais castelos de areia criados.

Como é frágil o saber humano

A prepotência da aparência

Que vence a inteligência

Mas sucumbe ante a morte

Ante o envelhecer que tarda, mas não falha.

Como é frágil a existência humana com suas contradições

Garantias, certezas, vícios, controle, apego as paixões.

Filhos da onipotência humana

Não existem garantias, nem certezas.

Somente ilusões, crenças, fé... Desejo!

O que nos resta é escolher

Dentro de limitadas opções.

Tudo perece ante o imprevisto

O imprevisto disseca a nossa realidade

E nos mostra a fragilidade da felicidade, da conduta,

Da virtude, da moral, dos costumes.

Tudo sucumbe ante a necessidade:

Ideais, certezas, crenças, promessas, fé.

Tudo está à venda, tudo é negociável

Não só o corpo, mas a alma também.

Se tudo tem um preço, todo homem também.

Tudo arrefece ante a dor

Tudo o que foi dito e promessas de amor.

Na dor toda carne se afirma carne

Na tortura toda carne se trai

Na provação a verdade aflora

No sofrimento toda alma se entrega

Na pressão toda alma se retrata.

No deserto gelado da alma

Que cala ante o desejo

Que derrete o verniz que a oprime

E que se submete ao seu jugo

E ainda assim, diante das evidências nega

E pela negação, afirma o que é ser humano.

O olhar trai as palavras e o que elas dizem

O sentimento sem consentimento

Tenta alterar o teor das sensações

O substrato instintivo da mente

Vigora vida afora.

Nada está tão a mostra

Mesmo quando se mostra

Mas tudo está visível

Mesmo que aparentemente invisível.




TIAGO TAMBURU BRESSAN


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SOBREVIVENDO NO CORPO






















A escola não me ensinou nada do que eu quisesse aprender

O mundo não corresponde aos meus anseios

As mulheres frustram minhas expectativas de amor

A família deforma os ideais nobres pelos de consumo

A religião valoriza a competição e a produção

Os intelectuais não compreendem o valor da compreensão

Estou perdido, estou vazio

Na mais completa solidão.

Os vínculos são de negócios

As relações são de ordem comercial

O que me salva das tragédias anunciadas

São minhas construções internas

Vou sobrevivendo no corpo

Por pouco, aos poucos, ainda acordado.



TIAGO TAMBURU BRESSAN

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

ORAÇÃO DOS AMANTES






















Inimigo meu que estais no inferno

Lembrado eternamente por minha espada

Seja o vosso nome

Venha a mim a tua derrota

E seja feita a minha vontade

Aqui na terra quanto aí no inferno

O instinto e insultos nossos de cada dia

Fomentemos hoje

Perdoa o mal que não lhe fiz

Da mesma forma com que não perdoo

O mal que não me fizeste

E que não nos deixemos sentir a gratidão

E livremo-nos de toda a culpa

Em nome da guerra que nos une

Abençoados sejam os afectos sentidos

Pelo romance entre os inimigos.


Que assim seja!



Tiago Tamburu Bressan

sábado, 24 de outubro de 2009

ANFITRIÃ DE CORPOS *






















No silêncio da noite escura
A solidão me tortura
Suscitando em minha alma apegada aos devaneios
A tão sonhada cura.
Mas quero representar a mulher moderna independente
Emancipada apenas economicamente
No mundo externo da esfera social.
Reprimida alma encarnada
Na mais densa e insana lama obscura
Assim sou eu em minhas fantasias eróticas
Fascinada pela subserviência aos generais
Aos agressores nocturnos
Que ostento em pensamentos, nas noites frias.
Na solidão das noites frias
Minha alma em chama clama por pecado.
Os porões do inferno foram abertos
Quando neguei meus desejos
Quando em vão tentei sublimar meus instintos
Quando paguei caro e comprei pronto o mito da maternidade
Que na realidade não se aplica a toda mulher
E compensar com objectos inanimados meus desejos carnais.
Desde então não tenho paz!
Almas da minha alma são um tanto sagaz
Em mostrar minhas mentiras
As minhas falsas construções
E corromper meus nobres ideais.
Ideais do ego consciente
Da bem comportada mulher decente.
Sou uma crente, mulher carente
Mulher que teme
Mulher que mente.
Que mente descaradamente
Perante um espelho
Que sempre se quebra
Ao contemplar uma imagem desgastada
Corroída pela acção do tempo.
Tempo que não tenho pra me permitir sentir
Tempos que há tempos se foram
E que não voltam mais.
O mundo das ideias vem tomando forma
No mundo das formas.
Os conteúdos reprimidos vêm tomando conta.
A dama da noite que me habita clama por liberdade e devassidão
E eu não estou dando conta
De acorrentar minha obsessão.
A repressão é o estimulante do desejo!
Neste momento real
De nada me servem os livros
Ou a literatura ostentada sagradamente durante anos.
Nem a bíblia sagrada parece mais me enganar.
Nada aplaca a fúria da libido com seu fluxo contínuo
Seja banho frio, chicotinho ou espinheiro santo.
Eu me toco e gozo
Na solidão que me caratecteriza.
Eu choro, respiro profundamente
E volto pras minhas mentiras mundanas
Mentiras mundanas da mulher contemporânea.
Aliviada do stress do desconforto das águas represadas
Volto a ser mãe, avó, matrona.
No mundo das aparências
Novamente encarno as resistências
De advogada, oradora, terapeuta
Professora e educadora
Voltando a ser de novo o que todos esperam de mim.
Auto-prazer é uma mentira
O amor talvez não exista
Talvez uma invenção dos poetas
Pra levar donzelas pra cama.
O sexo por prazer também me sacia a alma
Embora eu negue.
Sou um fantasma que vaga em dois planos
Tentando encontrar o que talvez não exista
Em nenhum dos dois.
E enquanto eu não encontro
Enquanto eu não desisto
Eu também não existo.
Enquanto não me emancipo
Preciso de membros pra me elevar a estima
Membros pra me fazer dormir
Membros pra me ressuscitar.
Nesse momento o fel é mel
A dor é prazer
A força é carícia
Em meus ouvidos palavrões se tornam poesias
O profano me é sagrado.
Distorção afectiva?
Na profundidade do meu ser
Anseio por ser a Anfitriã de corpos
Que no mundo das formas nunca existiu.
Mas é ela quem vos fala agora
Desse imenso oceano represado
Que embora desprezado
Sempre existiu... Sempre sentiu!
Nesse momento o verbo se faz carne
A mulher vitoriana se torna libertária
Os aspectos étnicos, sociais e económicos com seus preconceitos
Deixam de existir.
Nesse momento eu não tenho preferências
Eu aceito quem me quer
Eu sou de quem me deseja
Eu desejo quem me possuir.
E com muita resistência
Eu aceito que talvez eu ame
Seja homem ou mulher
O ser que me faça existir!


TIAGO TAMBURU BRESSAN

sábado, 17 de outubro de 2009

O CORPO DO FILHO *

















Nem sempre concordamos conosco
Embora mintamos a nós mesmos
E aos outros sobre isto.
Assim sendo
Porque iríamos concordar com os outros?
Os outros são partes de nós
E muitas vezes
Partes de nós que não queremos aceitar
Ser, ver, muito menos entender
Justamente por temer.
Por isso quero uma vela!
Pois esta noite eu vou ao meu enterro
Velar o que se apartou de mim
Vão prestar culto ao que em vida
Sempre cultuaram em mim
Mas não o que eu cultuei.
Nesta noite será visto
Apenas aquilo que sempre quiseram ver.
Continuarei vivo pra mim
Parecendo morto pra eles
Enquanto era vivo na carne
Parecia eu morto para eles
Agora que morre a carne
Estou vivo pra eles
Vivo entre eles.
Enxuguem suas lágrimas
Apaguem suas velas
Pai, mãe, suas lágrimas estão afogando-me
Suas velas estão me queimando
Pai e mãe, em súplica lhes peço
Se acalmem, não se culpem
Não sejam egoístas
Não lamentem minha ausência física
Se amem para aprenderem a me amar
Se perdoem para conseguirem me perdoar
Deêm-nos uma chance
Fiquem em paz
Pra me deixarem em paz
Cresçam e aceitem a realidade
Do acontecimento mais natural da vida:
A MORTE!
Porque tanto desespero
Se sempre soubemos disso?
Quanto despreparo em vida
Perdidos em gozos, conforto
E bens materiais
Riquezas que duram um dia
Perante a eternidade.
Meus filhos, que estão meus pais
Não se afoguem em poças d´agua
Não chorem
Vivam e reflitam.
Não chorem, nem se lastimem
Prossigam!
Pois a vida não acabou para nós
Pois ela, a vida...Continua
Continua pra nós, além de nós
Continua velada ou nua
Pro mundo... E além do mundo.


Tiago Tamburu Bressan